As touradas são só uma parte do que o PAN quer proibir

O tema é recorrente: "tourada não é cultura, é tortura", gritam as duas dezenas de manifestantes que todas as quintas-feiras de corrida se juntam à porta do Campo Pequeno. A questão é que se enganam.

E antes de entrar a fundo no assunto, faz sentido arrumar já dois argumentos recorrentemente repetidos contra as corridas de toiros: que estas são subsidiadas e têm cada vez menos aficionados. A realidade é que este espetáculo não recebe subsídios do Estado, tão pouco da Europa, como Bruxelas já esclareceu em meia centena de ocasiões (uma das respostas aqui) - antes pagam impostos, evidentemente, assim como pagam o aluguer das praças, maioritariamente concessionadas por Misericórdias. E para quem não vê o público que acorre às praças de toiros, fica um sinal indicativo de que as touradas estão longe de estar mortas: a candidatura da Tauromaquia a Património Cultural de Portugal foi o segundo projeto mais votado no Orçamento Participativo.

A verdade é que as corridas de toiros são parte integrante da nossa cultura. Isso mesmo está consagrado na Lei, quando são colocadas em pé de igualdade com o "teatro, a música, a dança", na categoria de "espetáculos de natureza artística". Ou quando surgem sob o título "Espetáculo Tauromáquico", descrevendo-se logo de início que "a tauromaquia é, nas suas diversas manifestações, parte integrante do património da cultura popular portuguesa. Entre as várias expressões, práticas sociais, eventos festivos e rituais que compõem a tauromaquia, a importância dos espetáculos em praças de toiros está traduzida no número significativo de espectadores que assistem a este tipo de espetáculos."

Talvez por não se arriscarem a ver mais do país e antes se ficarem pelas imediações do Campo Pequeno, não entendem, os que se dizem defensores dos animais, que não só tourada é cultura como é tradição na maior parte de Portugal, ilhas incluídas. Mas ainda que o vissem e simplesmente rejeitassem, a forma como apresentam a questão é verdadeiramente preocupante. Entendem os antitaurinos que aquele espetáculo e manifestação cultural - é a Lei que assim o chama - está errado, é inadequado à luz dos seus princípios e valores e por isso deveria ser proibido. Foi isso que tentaram fazer, quer no Parlamento quer na Assembleia Municipal de Lisboa, negando os próprios princípios inscritos na Constituição - que determina que "o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas" e que "todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural" e "incube ao Estado (...) promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum".

Saíram, felizmente, aqueles poucos, derrotados desta tentativa de aplainar a escolha cultural dos portugueses, de a pintar num só tom de cinza triste. Mas a derrota dos animalistas não pode apagar o ato muitíssimo mais grave que os move.

O que está em causa nestas votações que os antitaurinos forçaram é uma tentativa (e não é a primeira) de impor a vontade de quem se julga moralmente superior aos restantes, capaz e competente para determinar aquilo que é e não é aceitável que o povo veja e aprecie. Terrenos perigosos estes... já se fez piras de livros e se atirou pessoas para a prisão por menos.

Vamos achando pouco importantes estas ideias, algumas divertidas até, e não vemos o verdadeiro perigo que encerram. Poucos terão lido o programa eleitoral que levou à eleição de um deputado do PAN, mas vale a pena saber que nele se incluem projetos como "repensar o conceito de pessoa" (por comparação com os "animais não humanos"), "proibir a caça desportiva" (Conhecerão porventura os efeitos da praga de javalis no país? Saberão das recomendações europeias para que se cace coelho porque a população está a ficar descontrolada?), acabar com o extermínio de pombos citadinos (que consideram contrário "ao direito da proteção dos animais e que tem unicamente consequências macabras"), "proibir a produção e comércio de foie gras", impor a obrigação de "parar e prestar assistência aos animais vítimas de atropelamento" ("porque o direito à vida e à assistência não podem ser exclusivos da espécie humana")...

O traço comum: proibir, impor. Uma certa maneira de pensar, que não admite divergências. Suspender a democracia - acabar com a democracia.

As corridas de toiros são apenas um ponto de uma complexa e intrincada teia que se está a tentar tecer. Se dependesse dos animalistas, os limites da liberdade e da escolha não seriam muito diferentes dos daqueles que existem em países onde só há três cortes de cabelo considerados aceitáveis.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.