Alguém notou que houve greve de professores?

Seis meses a Fenprof ameaçou, até que cumpriu, mesmo que a contragosto. E os professores fizeram greve na semana passada, em dia de exames nacionais e provas de aferição. Não foi uma coisa assim acesa, violenta, com ecos em toda a comunicação social, gritos nas ruas, cartazes afixados nos portões das escolas e caras fechadas entre aqueles que foram forçados a cumprir os serviços mínimos. Não. Desta vez, houve panfletos.

Os professores - até o incansável Mário Nogueira - nem estavam com muita vontade de faltar. De tal maneira que o líder da Fenprof se limitou a "discordar, mas respeitar" quando o ministro decretou serviços mínimos. Nem parecia aquele mesmo Mário Nogueira que há quatro anos gritava "intimidação" e foi estudar a lei ao detalhe para jurar que Nuno Crato, então ministro, não tinha "competência legal" para os exigir. E que chegou a recorrer a um colégio arbitral para evitar a convocação de serviços mínimos, já que os exames "não configuram necessidades sociais impreteríveis".

Desta vez aliás, para evitar voltar a ser criticado pelos pais dos miúdos que ficariam sem fazer exame - claro que em 2013 houve uma semana inteira de paralisação, não foi só um tímido diazito, como agora -, o líder sindical até lhes escreveu a explicar as suas razões. E fez bem, porque muitos não acreditariam, se não o tivessem visto por escrito: "O que, verdadeiramente, prejudica os alunos não é a realização de um dia de greve pelos professores [mesmo que calhe num dia de provas nacionais, acrescentava adiante], mas sim a não-resolução dos problemas que levaram os professores a convocar esta greve".

Para quem ainda não decorou, os problemas são as carreiras dos professores, eternamente empecilhadas pelas falhas da tutela - desta vez, porque o atual ministro não assumiu compromissos em relação a matérias como o descongelamento de carreiras e o regime especial de aposentação ao fim de 36 anos de serviço, sem penalizações.

E lá está, a Fenprof não queria incompatibilizar-se com Tiago Brandão Rodrigues - evitou-o ao ponto de ser acusada de pôr a luta de parte naquelas alturas em que se discutia os problemas do arranque do ano escolar, dos salários atrasados no ensino artístico, da vinculação de professores... Mas depois de repetidos ultimatos sem nada acontecer do lado da 5 de Outubro, Mário Nogueira não podia mesmo deixar de ir em frente. Bolas, até piadas já se faziam a compará-lo ao Wally. O que nem sequer é justo, porque ao fim de mais de uma década a berrar para megafones, a pintar frases de ordem em cartazes e a discordar das orientações de sucessivos ministros, de esquerda e de direita, um homem tem direito a uns momentos de descanso.

Seja como for, a Fenprof voltou às ruas - menos estridente, mas com plena confiança depositada no líder da última década, recém-eleito até 2019. E como o próprio disse em entrevista a este jornal, ainda que esteja cansado, tudo fará pela causa que o manteve tanto tempo afastado das salas de aula dos meninos do primeiro ciclo. Mas se largar a liderança sindical a tempo de fazer alguma outra coisa na vida (está à beira dos 60 anos), essa coisa será voltar à sala de aulas e reassumir a profissão que lhe entrou na vida como alternativa ao ano de serviço cívico que teria de fazer se, em 1975, não tivesse trocada uma carreira de matemático pela Escola do Magistério do Ensino Primário. Na política, jura, é que nunca há de meter-se...

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