Das razões para a esquerda voltar à oposição

Depois de três anos adormecidos pelo acordo necessário para segurar António Costa - e pelos doces que foram recebendo pelo caminho - PCP e Bloco acordaram do torpor e começam a fazer exigências ao governo.

Cegueira ou hipocrisia, rasgam as vestes sempre que há uma câmara de televisão por perto e vão rotulando propostas como inaceitáveis. Querem expulsar os privados da saúde e da educação, aumentar salários e reformas (e acabar com todas as penalizações), pôr fim aos vistos gold e a qualquer tipo de benefícios aos estrangeiros, castigar as empresas que dão lucro, baixar os impostos para todos desde que não se incluam no grupo dos que consideram ricos - esses, obviamente, devem ser penalizados. E claro que não se esquecem dos seus projetos de nacionalização, sobretudo da banca, mas aplicável a qualquer negócio privado que cometa o pecado de dar lucros. O investimento, naturalmente terá de ser público.

O Estado pagará, o Estado desembolsará, o Estado providenciará. Outros que façam as contas aos custos - que isso claramente não é o forte da esquerda. E quanto aos avisos da Comissão Europeia há que descartá-los sem mais. Que importa a dívida? Que importa o défice? O que é que as metas de Bruxelas contam para Portugal?

A mês e meio do último Orçamento deste Executivo, a suave oposição que pouco eco dava à contestação nas ruas ampliou-se e deu lugar a novos ataques ao governo, a choques frontais dos partidos da esquerda radical com o ministro das Finanças (querem ver que foi o Eurogrupo que lhe subiu à cabeça?!), à rejeição chocada das decisões do ministro da Saúde, da contenção do ministro da Segurança Social, da inação do ministro da Educação. Quem os oiça agora pela primeira vez não adivinha que foi o apoio de PCP e BE que segurou o governo durante todo este tempo e duvida até que alguma vez tenham tido influência nas decisões tomadas.

O que mudou? Mudou o ciclo. Com eleições legislativas a acontecer no próximo ano e um país bem diferente do que existia em 2015, há demasiados riscos para esses partidos e é a perceção de terem sido arrastados para mar alto que os impele agora a esbracejar. A começar pelos votos - e essa questão vai muito além da perda do PCP e da sua necessidade de recuperação de forças.

Muitos dos que votaram BE não por convicção mas como forma de protesto e profunda desilusão com a difícil realidade dos anos da crise não repetirão a cruz - não há verdadeiramente motivo para contestar quando a vida corre bem. Por outro lado, uma fatia dos que votaram PS ainda não recuperou do susto provocado pela solução encontrada por António Costa para governar. Para convencer esses eleitores mais ao centro - e mesmo para recuperar uma parte semi-dormente do ADN do seu partido - é natural que o líder socialista aposte em soluções diferentes. Os créditos por aquilo que conseguiu há três anos já ninguém lhe tira.

Desta vez, Costa pode até bastar-se e livrar-se de contrapesos sem mais. E se não, talvez encontre mais vantagens em avançar a solo e ir assegurando acordos em todo o espetro partidário conforme a conveniência, caso a caso. Se há reconhecimento de competência que lhe é devido é o de saber negociar. E o apoio do PSD de Rui Rio será útil em questões que são caras aos dois maiores partidos - e para as quais nunca se poderá contar com a sensibilidade do PCP ou do Bloco.

Este orçamento não estará em risco, mas servirá já de barómetro a um novo equilíbrio de poderes. Costa já disse e repetiu que os partidos da esquerda radical têm apresentado propostas "irrealistas e irresponsáveis", o seu ministro das Finanças lidera o Eurogrupo e as metas de Bruxelas estão bem presentes em cada uma das decisões do governo. Por muito barulho que façam, PCP e BE estão a perder força. Resta saber se Rui Rio e Assunção Cristas serão capazes de saber ganhar o espaço que vai sobrando.

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