O valor do respeitinho

O respeitinho não está na moda. Ter respeitinho aos pais, aos mais velhos, às instituições ou aos professores é coisa do tempo dos filmes mudos. O respeitinho é o respeito só porque sim: sem razão aparente levantamo-nos, deixamos passar primeiro, não interrompemos nem falamos por cima, não discutimos e obedecemos. Respeitinho é qualquer coisa que nos faz engolir em seco, provoca uma fúria interior quase incontrolável e que acaba com um singelo "sim, pai". Ou seja, é o único garante de uma ordem mínima na sociedade e nas famílias sem que o Estado tenha de intervir. Mas hoje respeitinho é quase maus--tratos, é restringir a liberdade das crianças, humilhar os jovens, vá. Um dos meus filhos disse a uma professora que "em minha casa educaram-me a dizer sempre aquilo que penso" e ele tem imensas opiniões sobre educação de adolescentes, disciplina, matemática, o mundo em geral. Obviamente que a coisa não correu bem. Ele acha uma injustiça não o ouvirem na exata medida em que ele ouve os outros, que a sua opinião não seja tão considerada quanto a dos pais e acredita que está em pé de igualdade com o Papa e com o Presidente da República. E responde. Responde sempre. E quando não responde encolhe os ombros e entorta a boca: "O que é isso, ser insolente?" Só quando o ameaçamos de morte é que ele baixa o queixo e rosna um "sim, mãe". No outro dia soube de uma mãe que bateu no filho e ele foi para a escola com uma marca na cara. A escola fez queixa à CPCJ e a criança está sinalizada. Pumba: um estalo e o processo. E uma pessoa fica parva. Tirando Nossa Senhora e a mãe do Ruca, que mãe já não se passou com os filhos? E porquê? Por causa do "o que é isso, ser insolente?" depois de hora e meia no trânsito e nove horas de trabalho. Há uma idade em que eles são maiores do que nós e acredito que todas as regras da educação foram pensadas em função desse dia. Ou seja, para que eles tenham respeitinho quando nós já tivermos força para impor respeito. Uma amiga minha mandou o filho de 15 anos e de um metro e setenta para o quarto de castigo e ele respondeu "não vou". E não foi. Lembro-me de a minha avó dizer a um dos irmãos para se baixar porque ela queria dar-lhe um tabefe (a minha avó dizia tabefe), já que ele não tinha idade para levar uma palmada no rabo. E o meu irmão, com respeitinho, baixou-se. Por isso é que a minha avó morreu em casa dela, rodeada de netos e filhos. Porque respeitinho e amor são as duas faces da mesma moeda.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.