Uma história de mulheres

Nos tempos que correm, de uma certa consciencialização mediática das causas feministas, ainda há quem faça o pleno elogio à mulher sem cair no, muitas vezes, efémero discurso panfletário. Também serve para o cinema. Contam-se pelos dedos os filmes que contemplaram abertamente a resistência e mágoa daquelas que viram os seus homens partir para a guerra - um dos exemplos emblemáticos é a primeira película a cores de John Ford, Ouvem-se Tambores ao Longe (1939). Por isso saudemos o magnífico gesto de Xavier Beauvois, que chega agora às nossas salas: As Guardiãs. Saudemo-lo, desde logo, pela sua enorme cumplicidade com a história das mulheres. Particularmente as que, durante o primeiro conflito mundial, lavraram a terra e asseguraram a produção, enquanto os filhos e os maridos estavam no campo de batalha. O realizador desse admirável Dos Homens e dos Deuses traz-nos mais um sereno e impressivo olhar sobre aquilo que, dito de forma simples, une a humanidade: o amor, a morte e o trabalho. Este é um filme que nos põe diante de silhuetas femininas a laborar nas searas e terra de cultivo. Imagens que, além de evidenciarem a extrema força das mulheres, também se deixam atravessar pela angústia ancestral que lhes habita o corpo. Elas são o centro e abismo de uma visão seca e profundamente dramática da realidade. Os seus rostos símbolos de uma discreta honra que se manifesta nos muitos silêncios do filme. Aqui, a palavra serve quase só para expressar os sentimentos que, apesar de tudo, têm oportunidade de nascer, ou para anunciar uma morte... Beauvois filma tudo isto com um recatado louvor pictórico, que se torna eloquente na harmonia dos semblantes com a paisagem. Não poucas vezes, a beleza e a dor estão lado a lado. De ambas se faz o majestoso retrato de As Guardiãs.

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À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

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João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

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Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.