Ninguém escreve a Don Diego

O regresso da argentina Lucrecia Martel, nove anos depois de A Mulher sem Cabeça, assinala-se com um filme que fala sobretudo disso: o tempo que passa. Mais precisamente, o modo como os corpos habitam o tempo na inconsciência do presente, e numa solidão em estado bruto. Don Diego de Zama, o oficial espanhol cujo apelido dá título ao filme (este adaptado de uma das obras mais importantes da literatura argentina, do escritor Antonio Di Benedetto), é um homem preso no ermo civilizacional das colónias americanas de Espanha, à espera de ser promovido, e de voltar a ver a família - essa esperança quimérica do "regresso a casa". E Zama capta a infinda espera com verdadeira grandiloquência cinematográfica, num labor de encantamento subtil. Digamos que Martel chega ao interior do personagem, à sua solidão pantanosa, através de um olhar quase onírico sobre a realidade que o envolve e submete à introspeção. A saber, uma realidade mais assente na vida dos corpos do que na paisagem: o físico humano como sensualidade que concentra a matéria temporal. Aí reside a dimensão imersiva do filme, uma viagem estranha, que impregna o espectador dessa estranheza. Uma visão sem futuro nas entrelinhas, que nos vincula à escrita seca do real.

Graças também à soberba fotografia de Rui Poças (acabado de ser premiado por esse trabalho nos Prémios Platino, tidos como os Óscares ibero--americanos), somos convidados ao voyeurismo da saga íntima de Don Diego a partir de uma certa luz exterior. Colados à sua pele, experimentamos cada plano como condensação do imaginário colonial e, tal como a personagem do conto de Gabriel García Márquez, Ninguém Escreve ao Coronel, testemunha-se a densidade e dilatação do tempo enquanto narrativa do "aqui e agora" que se acumula, à espera do correio que não vem.

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