Mulheres de pulso firme 

Tirando o grande prémio da noite, cujas apostas se dividiam, a teoria das probabilidades dominou esta edição dos Óscares. Num ano em que o rol de atrizes nomeadas satisfazia quase plenamente o princípio da variedade - desde a histeria de Margot Robbie, no papel da controversa patinadora artística Tonya Harding, à doçura de Sally Hawkins, apaixonada por uma criatura aquática -, a escolha da Academia de Hollywood veio apenas confirmar o resultado dos cálculos feitos ao longo da temporada de prémios. E pedindo desde já desculpas, posiciono-me contra esta matemática. Tenho alguma dificuldade em lidar com a vitória "pré-anunciada" de Frances McDormand. Em primeiro lugar porque não consigo deixar de inferir que a verdadeira vencedora do Óscar de melhor interpretação feminina não é a atriz mas a sua personagem... Nestes tempos dominados por hashtags e movimentos feministas (que devem ser aplaudidos no essencial), era extremamente apropriado dar a estatueta à personagem que toca nas feridas da atualidade. Por acaso, essa personagem é conduzida por McDormand, uma grande atriz que conhece todos os códigos da dureza. Mas não deixo de acreditar que, por exemplo, uma Margot Robbie, com um pouco mais de rugas, também conseguisse o feito neste papel. Não é a qualidade da performance de McDormand que se põe aqui em causa, mas até que ponto a sua postura rija e masculina aguenta não se converter em caricatura.
Acima de tudo, vale a pena refletir sobre a natureza da atribuição deste prémio, inclusivamente se pusermos na equação ausências como a de Annette Bening, que na pele de Gloria Grahame (1923-1981), em As Estrelas não Morrem em Liverpool, deu uma das mais subtis e comoventes interpretações recentes. Ou então, pense-se na garra juvenil de Saoirse Ronan, um enorme talento que chega pela terceira vez às nomeações sem colher frutos. Mas, contas feitas, McDormand era o rosto destinado a marcar uma noite que estava sob o signo do espírito feminista.

A previsibilidade esteve também do lado de Allison Janney, atriz secundária que dobra o efeito de tudo o que se disse antes. Vejamos, não tem esta personagem azeda da mãe de Tonya Harding o perfil adequado a uma noite de mulheres de pulso firme? Mais conformidade que isto era difícil.

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