Uma história de mulheres

Inês N. Lourenço

Nos tempos que correm, de uma certa consciencialização mediática das causas feministas, ainda há quem faça o pleno elogio à mulher sem cair no, muitas vezes, efémero discurso panfletário. Também serve para o cinema. Contam-se pelos dedos os filmes que contemplaram abertamente a resistência e mágoa daquelas que viram os seus homens partir para a guerra - um dos exemplos emblemáticos é a primeira película a cores de John Ford, Ouvem-se Tambores ao Longe (1939). Por isso saudemos o magnífico gesto de Xavier Beauvois, que chega agora às nossas salas: As Guardiãs. Saudemo-lo, desde logo, pela sua enorme cumplicidade com a história das mulheres. Particularmente as que, durante o primeiro conflito mundial, lavraram a terra e asseguraram a produção, enquanto os filhos e os maridos estavam no campo de batalha. O realizador desse admirável Dos Homens e dos Deuses traz-nos mais um sereno e impressivo olhar sobre aquilo que, dito de forma simples, une a humanidade: o amor, a morte e o trabalho. Este é um filme que nos põe diante de silhuetas femininas a laborar nas searas e terra de cultivo. Imagens que, além de evidenciarem a extrema força das mulheres, também se deixam atravessar pela angústia ancestral que lhes habita o corpo. Elas são o centro e abismo de uma visão seca e profundamente dramática da realidade. Os seus rostos símbolos de uma discreta honra que se manifesta nos muitos silêncios do filme. Aqui, a palavra serve quase só para expressar os sentimentos que, apesar de tudo, têm oportunidade de nascer, ou para anunciar uma morte... Beauvois filma tudo isto com um recatado louvor pictórico, que se torna eloquente na harmonia dos semblantes com a paisagem. Não poucas vezes, a beleza e a dor estão lado a lado. De ambas se faz o majestoso retrato de As Guardiãs.