Radicais como Trump

O episódio do discurso de Donald Trump, na Carolina do Norte, na semana passada e, sobretudo, a multidão levada a gritar "mandem-na de volta" ("send her back") não é apenas racista e um dos momentos menos americanos da política dos Estados Unidos dos últimos anos, é, também, uma estratégia de escolher adversários. E é por isso que é preciso entendê-la.

A questão racista deste discurso e dos gritos da multidão é evidente. Não há aqui outra coisa que não seja ódio e disponibilidade para atacar. Se se comparar com o momento em que John McCain interrompe uma apoiante, no meio de um comício, para explicar que tem muitas divergências políticas com Obama, mas que o argumento racista ou xenófobo não é aceitável, a diferença de carácteres é evidente (como se ainda fosse preciso).

Sobre esta parte do tema o mais importante é dizer que depois disto fica impossível a qualquer pessoa decente não tomar partido. Tolerar Trump é ser conivente. Acontece que Trump sabe que os eleitores se movem por outros critérios, e é isso que o guia.

Ilhan Omar não é apenas negra e muçulmana, é, também, uma das vozes activas da ala mais à esquerda do partido democrático. Apesar de ter sido eleita com um apoio impressionante no seu círculo eleitoral, o seu radicalismo político torna-a insuportável para um enorme número de americanos de várias cores, credos e orientações políticas. O facto de ter sido, várias vezes, criticada por democratas, e de já ter tido que pedir desculpa por comentários sobre Israel, ajuda a perceber porquê.

Trump não estava só a ser racista, estava a ser estratégico. Estava a escolher os adversários. É isso que importa perceber, porque nisso não está sozinho.

A caminho das eleições, e com quase trinta possíveis candidatos democratas, as sondagens indicam que há alguns cenários em que Trump pode perder. E isto que explica o que fez. Independentemente da obscenidade do que foi dito, na perspectiva de muitos americanos, a sua vida seria muito pior se o país fosse governado pelas ideias de Ilhan Omar. As suas posições sobre economia, política externa ou a América em geral, são o oposto do que a enorme maioria dos americanos pensa. Trump quer fazer de conta que a escolha é entre si e esta versão dos democratas. Se conseguir, ganha.

O que Trump está a fazer não é novo nem único. A política contemporânea, incluindo na Europa, está cheia disto. Um lado radicaliza-se, identifica como adversário os radicais do lado oposto, provoca-os e espera que o horror do que diz seja menos dissuasor do que o horror no lado de lá.

Num cenário destes, há uma coisa que é preciso que aconteça para que as estratégias dos radicais falhem: que os moderados não deixem o palco deserto. No caso concreto, é preciso que os republicanos chocados com o que foi dito dêem a cara, sem medo de serem confundidos com Ilhan Omar e as suas ideias. Mas também é preciso que o partido democrata não deixe Ilhan Omar e companhia serem, ou parecerem que são, a voz democrata. Não é apenas uma questão de valores - que é - mas é também estratégia.

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