O Brexit não é só como eles quiserem

Ao longo das últimas semanas, o Brexit tem ocupado os jornais e televisões com a intensidade, o drama e a paixão de um reality show. As perdas de voz de May, a hesitações de Corbyn, os trânsfugas, tudo é visto e comentado. Até as gravatas do Speaker of the House conhecemos (ainda não repetiu nenhuma). É a democracia, dizem-nos. Será. Mas como em todos os divórcios há (pelo menos) duas partes. E se é certo que não podemos, não queremos, nem temos interesse em pôr-lhes as malas à porta, também é verdade que não podem continuar a precisar de tempo para pensar todas semanas.

Depois de dois anos e meio de alguma tranquilidade, enquanto duraram as negociações, nos últimos meses o processo transformou-se numa espiral desordenada e emocionante em que todas as semanas são ainda mais decisivas do que a semana anterior, e um pouco menos do que a seguinte. Isto não pode continuar.

Tendo negado duas vezes o acordo proposto pela UE, sem terem apresentado um alternativo, tendo decidido que não querem sair sem acordo (que é a solução inevitável se não houver outra até dia 29 deste mês) e tendo dito que não querem um novo referendo, parece que sobra (se não acontecer outra coisa qualquer entretanto) o pedido de adiamento do Brexit. Por quanto tempo? É aqui que a Europa tem de se concentrar no seu próprio interesse e só dar duas opções. Ou saem antes das eleições europeias (não participando, portanto) e têm (temos todos) dois meses para resolver o que seja possível, ou saem daqui a um ano, no mínimo. E então participam nas eleições, têm um comissário, continuam a ir ao Conselho Europeu e durante esses 12 meses decidem o que querem propor de diferente, acordam entre si (no parlamento, num referendo ou através de eleições) e depois vêm falar connosco. O que não é possível é que se conceda uma extensão de dois ou três meses, para depois ter de conceder outra, e mais outra, e por aí fora. A política e a economia europeias (e britânicas, provavelmente, mas isso é lá com eles) não ganham absolutamente nada com esta instabilidade.

Se há coisa que os britânicos não aprenderam com a UE é a arte do compromisso. A contrário de quase toda a política nacional, que é confrontational, a política na União Europeia faz-se de acordos inevitáveis, consensos possíveis e muita, muita cedência. Tudo aquilo que as múltiplas facções na Câmara dos Comuns se têm recusado a fazer. Pelo contrário, cada um vota de acor- do com a lógica irredutível da sua posição (daí que haja coligações pontuais completamente in- congruentes), sem nunca tentar fazer pontes com os outros lados (e menos ainda com os 27). O ideal era que um novo referendo fizesse o Brexit morrer, ou uma saída ordenada mantivesse o Reino Unido por perto da UE. O pior, é este drama semanal. E a isso, pelo menos, é possível pormos nós termo.

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