O antiamericanismo de Trump

Na semana passada a União Europeia fechou dois acordos comerciais com especial significado. Um, com o Mercosul, estava a ser negociado há vinte anos e permite uma enorme redução de taxas alfandegárias entre a Europa e os quatro países da América do Sul. O outro, com o Vietname, sendo menos impressionante, tem também importância e igual significado. Num tempo em que a América se caracteriza pelas guerras comerciais, a Europa define-se pelo comércio livre. Uma diferença que faz toda a diferença.

O nosso pós-Segunda Guerra Mundial foi feito pelos americanos. O Ocidente, que ganhou a Guerra Fria, não sendo isento de críticas, foi o mundo livre, aberto, promotor da democracia, aliado da liberdade e fundamental para a paz. Sim, tolerou ditadores e conviveu com facínoras, mas muito menos do que o outro lado. E, mais importante, tinha um conceito. O Ocidente não foi apenas o oposto da União Soviética foi, sobretudo, uma ideia que herdámos e melhorámos. A democracia liberal foi a causa que defendemos e a América foi a sua campeã. Hoje, essa América está em crise. E esse é o nosso maior problema.

Quando Trump diz que os aliados têm de pagar as suas contas na NATO, ou quando acentua a viragem para o Pacífico, não faz nada de substancialmente diferente do que outros presidentes disseram e fizeram. Além de que tem razão. Os aliados devem contribuir para a sua segurança e é no Pacífico que está a ameaça futura. Nada disso é o problema. Nem sequer o tom boçal com que governa e tuíta. O problema verdadeiramente grave é a forma como Trump vê o papel da América.

Trump está obcecado com a balança comercial e entende que a forma de a equilibrar passa por ser hostil com os parceiros. Da China ao Canadá, do México à União Europeia, o presidente americano negoceia com manha e agressividade. Em vez de amigos, quer fazer vítimas. Numa perspetiva puramente pragmática, até pode ter razão e sucesso pontualmente mas, no geral, aquilo que a sua América tem conseguido é alienar parceiros e aliados. Não se trata de haver antiamericanismo. Isso sempre existiu, mesmo no Ocidente, e nunca impediu o sucesso da aliança. O que se passa, agora, é que os "americanistas", os atlantistas da Europa, os aliados dos americanos pelo mundo fora, deixaram de ter um interlocutor em Washington. O presidente dos Estados Unidos não quer liderar o Ocidente nem inspirar o mundo. Quer vantagens comerciais.

Claro que a economia americana há de ser a preocupação fundamental do presidente, seja ele qual for. E é verdade que o confronto com a China é, em grande medida - e certamente muito antes de ser militar - económico. Isso explicará muito do que Trump tem feito. Mas não explica tudo.

Já houve um tempo em que a América liderou o mundo livre. Esse tempo acabou. Ou, pelo menos, não é o tempo presente. Enquanto a Europa faz acordos de livre comércio, a América faz guerras comerciais. É tempo de acreditar que talvez o futuro do Ocidente esteja na Europa. Nesta América não está. E na China também não.

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