Para que serve a Europa?

Há dias, numa conferência em Bruxelas, um dos comissários europeus mais interessantes e com maior orçamento (detalhe não irrelevante nesta conversa) comentava que a comissária europeia mais reconhecida publicamente seria Margrethe Vestager, a dinamarquesa que dirige a pasta da Concorrência, na Comissão Europeia. A razão de ser, explicava este comissário rico em orçamento, é que a sua colega tem poder. Vestager já multou a Google, a Apple, o Facebook... you name it. Ao longo dos últimos anos, a comissária da Concorrência tem sido o rosto de uma espécie de política fiscal comum alternativa que impõe limites à competitividade fiscal agressiva de vários Estados membros, de que muitas grandes empresas beneficiaram, e obriga-as a pagar os impostos devidos. Isso tem tornado a comissária conhecida e, acreditam no Berlaymont (a sede da comissão), popular entre os europeus.

Desta análise há algumas conclusões que se podem tirar. A primeira, é que em Bruxelas se importam com a reputação e imagem dos comissários. Nada de surpreendente. Mais relevante, é que na Comissão se acredita que a popularidade da União Europeia (e dos seus atores) resulta mais do poder do que do dinheiro que tenham. O que significa que, ao mesmo tempo que se discute o próximo orçamento europeu, vai continuar a discutir-se, sobretudo, poder para Bruxelas. Porque é isso que faz a diferença, acredita-se.

Há uns bons anos, a Europa era, para muitos de nós, no Sul da Europa, sinónimo de fundos. Era o dinheiro que importava. O que tinha feito a diferença. A Europa não era um ator interno, era um benemérito externo. Aquilo que nunca nos perguntámos, por cá, era a que é que os restantes europeus, os que não beneficiavam assim tanto desses fundos, associavam a Europa. À ideia de paz? À criação de um grande mercado? A resposta, pelo menos entre nós, não é conhecida nem discutida, mas não é nada irrelevante. Chegados aqui, chega-se à questão seguinte, que é a que importa. A Europa, para ser uma ideia que atraia os europeus, deve ser percebida como o quê? Para que serve a Europa? Ou, melhor dizendo, para que deve servir a Europa. Para que faz falta? Daqui a um ano e pouco há eleições europeias. Se não acontecer nada de extraordinário, a bolha europeia discutirá o spitzenkandidat, os lugares do PPE, Socialistas e Liberais, terá medo ou pânico (ou alívio) dos resultados dos partidos populistas e, passados uns dias, voltará ao seu caminho. Entretanto, discutirá o orçamento e, dessa forma, distribuirá parte do poder. Tudo isto está certo e faz parte do (bom) jogo democrático. Mas a Europa precisa de ser uma história que merece ser contada. Em vez da ideia de Projeto Europeu (que dá a sensação de que a Europa é um desígnio para onde as elites nos dirigem inexoravelmente), a Europa precisa de fazer falta. De ser uma partilha, uma cedência com ganhos e perdas, que se justifica por si. É isso que conta. E se essa história não for contada, não vai ser vencedora nas próximas eleições europeias. Falta um ano.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.