Isto ainda não acabou

Isto (as eleições em que ganham populistas, extremistas e desequilibrados em geral) ainda não acabou, mas isto (a União Europeia ou a Europa, simplesmente) ainda pode acabar mal.

Depois das eleições francesas e holandesas, a Europa sossegou. O brexit, Le Pen (e Trump), afinal eram epifenómenos. Coisas que acontecem. Entretanto, houve eleições na Alemanha com um impasse e a extrema-direita a ficar na liderança da oposição, e agora as eleições em Itália. Claro que se pode dizer que a Itália é governável mesmo sendo ingovernável, de maneira que, pior ou melhor, a coisa se resolverá. E que na Alemanha haverá sempre uns neo ou pré-nazis a despontar. Isso acalma os ingénuos.

A ilusão, em partes de Bruxelas e nalgumas capitais, era a de que assim que a economia retomasse os cidadãos, felizes e com dinheiro na carteira, voltavam a acreditar no projeto europeu e podíamos retomar o curso interrompido. De resto, foi isso que estimulou algumas propostas mais neofederalistas que têm surgido.

Acontecem, porém, duas ou três coisas. O dinheiro pode estar a regressar, mas a maior parte das pessoas percebeu que o futuro pode não ser só luminoso. A globalização e digitalização da economia (irreversíveis, é melhor que se diga) não são só alegrias (ainda que sejam muitas). A perceção, maioritariamente muito injusta e errada, de que algumas das maiores ameaças estão cá dentro não ajuda nem um pouco. E portanto, se ninguém fizer nada, vai haver mais Itálias e Alemanha e por aí fora. De resto, se as coisas correrem mal a Macron, a história pode acabar muito, muito mal em França. Daí que?

Achar que os eleitores são ignorantes, perigosos ou egoístas pode reconfortar alguns espíritos, ou ser uma grande desilusão para outros, mas resolve pouco.

Até às próximas eleições europeias os partidos que defendem sem hesitações as democracias liberais precisam de recuperar duas ou três ideias.

Primeiro: a Europa ou é dos Estados ou não será coisa nenhuma. A Europa federalizada, dos cidadãos, é uma construção de uns poucos. Segundo: os Estados membros têm de ser responsabilizados pelo que dizem e fazem. O Conselho tem de ser mais transparente e exigido aos governos que assumam o que defendem, o que conseguem ou não e quais são as contrapartidas. Se os cidadãos não perceberem que negociar é fazer compromissos, os eleitores considerarão cada cedência uma traição. Terceiro: uma agenda política precisamente de compromisso. Criar maiorias e oposições no Parlamento, na Comissão ou, um dia, no Conselho é aumentar a divisão e a ideia de que há muita gente que está de fora. Por último, evitar o " eu bem vos avisei". Há políticos que, para beneficiar do apoio dos descontentes, basicamente se limitam a dar-lhes razão sem oferecer um caminho. Dizem que mais vale serem eles a agarrar a bandeira da extrema-esquerda ou da extrema-direita. Como se o problema estivesse em quem diz e não no que é dito.

Ser europeísta hoje é dizer que a Europa é parte da solução. Não é o problema que tem de ser eliminado nem é um projeto que tem de ser construído à força. É um caminho.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.