Fundodependentes

Passados 33 anos da adesão à então CEE, Portugal continua a olhar para o orçamento europeu exatamente da mesma maneira que fazíamos então: precisamos desesperadamente deste dinheiro. E precisamos tanto quanto e do mesmo modo que precisávamos quando aderimos. A diferença é, ou deveria ser, que em 1986 tínhamos saído da Revolução havia 12 anos, de um resgate do FMI havia três, tínhamos um país em reconstrução e éramos pobres. 33 anos depois não somos muito diferentes. Ou, mais seriamente, não somos suficientemente diferentes. Claro que estamos e somos muito diferentes do que éramos. Até a nossa pobreza mudou. Mas não somos tão diferentes quanto era expectável e exigível que fôssemos. E, sobretudo, não mudámos estruturalmente o suficiente. Isso, e não quanto vamos receber a menos dos fundos de coesão, é o nosso verdadeiro problema.

A discussão sobre o orçamento da União Europeia entre 2021 e 2027 já começou e, como seria de esperar, cada um diz o que era suposto que dissesse. Os Estados membros contribuintes líquidos querem pagar menos, os Estados que beneficiam da coesão querem mais fundos sociais e regionais, os países agrícolas não querem que a PAC emagreça, a sul quer-se mais dinheiro para gerir fronteiras e migrações. A norte privilegia-se a condicionalidade (fazer depender o que se recebe das reformas que se fazem), e por aí fora.

Se as propostas da Comissão não forem alteradas, a redução em 7% dos fundos regionais iria afetar-nos diretamente. O normal é os decisores políticos portugueses tentarem recuperar o que corre o risco de se perder. É o que se espera. Mas não conta a história toda.

Ao contrário de Portugal, há um português que saiu a ganhar desta proposta. O orçamento do comissário Moedas cresce até 33%. Isto significa várias coisas. Que a Comissão acredita que o impacto e utilidade das verbas investidas na investigação tem mais retorno e são mais importantes para a economia europeia, que a visibilidade desses investimentos pode ajudar à construção da ideia de Europa, que é na modernização da economia europeia que a Europa pode crescer. E que Moedas fez um bom trabalho.

Às verbas para a investigação e inovação todos podem concorrer. Por definição, ganham os melhores, sejam ricos ou pobres. Obviamente, com frequência os melhores são os que chegam dos países mais ricos. Mas essa circunstância não é uma maldição irreversível. E, por todas as razões (porque são as que de futuro continuarão a aumentar, e porque são as que fazem as economias crescer), é nisso que deveríamos apostar. É isso que pode fazer a diferença.

Há dias, em Bruxelas, o ministro da Ciência, Manuel Heitor, declarou que Portugal quer obter 2% do orçamento europeu para a investigação e inovação. É ambicioso. É um bom objetivo. E, dependendo muito de políticas públicas, não depende só do governo ou do ministro. Exige muita coisa. Desde logo empenho, esforço e risco dos privados.

Passados 33 anos, devíamos ser diferentes do que somos. Agora se verá se somos capazes de mudar a história dos próximos 33.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.