Esquerda okupada

Depois de ter sido enxovalhado nas eleições presidenciais francesas, Benôit Hamon, o então candidato socialista, decidiu criar um novo partido, o Generation.s, e prepara-se para concorrer às europeias alinhado com a lista que Yanis Varoufakis está a organizar. Podendo parecer irrelevante, isto conta uma história.

Numa entrevista à revista italiana L"Espresso, no final de Julho, Hamon explica que o seu resultado, atrás do extremo-esquerdo Jean-Luc Melénchon, foi culpa da herança do governo socialista de François Hollande. O facto de o vencedor, Emmanuel Macron, ter sido ministro da Economia do mesmo governo socialista não o parece impressionar.

Benôit Hamon não se limita a acusar o novo presidente francês de ser o presidente dos ricos, ou de não se preocupar com os pobres, ou a reclamar-se herdeiro do socialismo verdadeiro (que fez, com os democratas-cristãos, a Europa e o euro). O líder do Generation.s diz que o mal disto tudo é a Europa que temos, o Euro e a fragmentação de uma esquerda que integrou neoliberais como Hollande (é o que ele diz, juro).

O percurso pessoal de Hamon não é único. Pela Europa fora, muita esquerda está a virar à esquerda da esquerda (se Varoufakis não é o fim da esquerda, quem é que é?), deixando o centro esquerda a transformar-se num deserto. No Labour britânico, nos franceses, na Grécia, em Itália e na Alemanha, para elencar os mais evidentes, o centro esquerda social-democrata está a perder votos e quem o queira representar. Depois das derrotas eleitorais, vez de ressurgir um socialismo que convive com o mercado e o capitalismo, mas o quer transformado, que defende a Europa sem dúvidas e com os pressupostos todos (incluindo, de novo, o mercado, mas também a liberdade, e o Ocidente), esta esquerda prefere Chavez (quando não mesmo Maduro) aos presidentes americanos todos, é contra o Euro, acredita na conspiração dos banqueiros e, de resto, acumula causas marginais como bandeiras. E na hora do voto, no Parlamento Europeu, em muitas coisas confunde-se com a extrema-direita. Mesmo que por razões opostas.

Na mesma edição, a L"Espresso faz um grande dossier sobre o futuro da esquerda. O mais impressionante é que a lista de quem os jornalistas acham que vai ser o futuro da esquerda italiana inclui ativistas de tudo e mais alguma coisa (sobretudo direitos dos imigrantes, é certo), mas quase ninguém que represente temas tradicionais da social-democracia. Ou seja, se a L"Espresso tiver razão, o futuro da esquerda italiana é, no essencial, a esquerda radical.

Um dos problemas disto tudo é que estas coisas ultrapassam as fronteiras nacionais. A Europa tem sido feita, e só pode ser feita, de consensos. Uma construção que não corresponde a uma realidade política pré-existente precisa de ser mais consensual que confrontational, de ter o acordo de quase todos e não a alternância permanente de opostos. À direita, apesar da extrema estar a crescer, ainda há grandes partidos de centro-direita com peso e votos. À esquerda, o centro-esquerda está a desaparecer e a possibilidade de consensos desaparece com ele. Uma Europa feita assim desfaz-se num instante.

Consultor em Assuntos Europeus

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Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

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