Cuidado com a discussão

Entre Genéve e Montreux, e muito provavelmente pelo resto da Suíça, desde que começou o Mundial e enquanto nenhuma das equipas deixa de participar, há imensas varandas com bandeiras de Portugal e da Suíça. Uma e outra, postas lado a lado. Há dois anos, durante o Europeu, sem os suíços em campo, não era assim. Mas este ano tem sido.

Não se pense, porém, que são os suíços que têm um especial carinho por Ronaldo, ou que desataram a casar com moçoilas de Trancoso. A explicação é mais simples e diz mais sobre outras coisas.

"A gente põe a bandeira da Suíça porque se não os gajos ficam chateados. E com razão. Eu gosto disto aqui. Estou cá há mais de trinta anos." Numa frase, Manuel resume o que muitos chamam de integração. Não se trata de fazer dos emigrantes portugueses uns suíços. "Logo à noite, se ganharmos (esta conversa foi antes do jogo com o Uruguai), vai tudo para a praça festejar. Nem a polícia nos para". Não ficaram suíços, estes portugueses, mas percebem que torcer por Portugal e pelo país onde vivem, além de fazer sentido, é simpático. E, no entanto, ainda assim há racismo. "Sobretudo na Suíça alemã. Até os polícias olham a gente de cima".

Ninguém de bom senso pode achar que estas histórias resumem uma qualquer versão sobre a emigração. E, menos ainda, o que se está a passar na Europa. Mas há aqui duas notas essenciais à qualquer discussão séria.

Em primeiro lugar, existe uma distinção clara entre questionar ou mesmo querer regular a imigração, e racismo. Uma, é parte necessária da conversa política; a outra, tem de ser muito claro que não é aceitável. É isso exige coragem política, porque há muitos ouvidos por essa Europa fora disponíveis.

Itália podia, e teria razões para o fazer, querer mostrar que suportar sozinha a pressão migratória era injusto quando quem vem o que procura é a Europa. Mas ao recusar a acostagem do navio e, umas semanas depois, ao comentar numa selfie com gôndolas atrás, postada no seu Facebook , que não havia motivos para preocupações que aquilo não eram barcos com imigrantes, Salvini provou - como se ainda fosse necessário - que o que o move não é a necessidade de partilhar entre europeus o impacto de uma mistura de imigrantes e refugiados ou, sequer, a necessidade de assegurar a integração de quem chega. Os Salvinis e companhia têm um problema com imigrantes por serem imigrantes, por serem pretos, muçulmanos, do Médio Oriente. Por serem diferentes. Isto é racismo, mesmo que apareça mascarado doutra coisa. E em Itália - como no centro e leste da Europa - nem tentam disfarçar.

O outro lado da discussão que não interessa é o que faz de conta que está tudo bem. Que são e têm de ser todos bem-vindos, que questionar os riscos sociais, políticos, económicos e de segurança, é ser um Trumpzinho de aldeia.

Uma discussão onde os radicais impedem todos os outros de conversar não é só impossível, é sobretudo muito perigosa e tem tudo para acabar mal.

"Não aprendemos nada, pois não?", ouvi há dias. Se não fizermos nada, acho que não.

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