Boas ideias para o futuro

A maior parte dos portugueses é capaz de nem desconfiar como se chama a secretária de Estado para a Indústria ou sequer achar que a função faz falta num país que raras vezes pensa em si como industrial. Felizmente, para esses portugueses e para os outros, a senhora existe e tem uma ideia que pode ser muito útil para o país. Chama-se Zona Livre Tecnológica e Ana Teresa Lehmann, a secretária de Estado, falou dela numa entrevista ao Expresso, no final do mês passado.

Como ali disse, uma Zona Livre Tecnológica "é o espaço físico ou regulatório que proporciona a experimentação de novas tecnologias, a atração de investimentos para iniciativas de teste. E isto pode representar um mercado enorme, tanto do ponto de vista de gerar desenvolvimentos tecnológicos do lado da oferta como do lado da procura por entidades externas de um ecossistema favorável a iniciativas de testes".

Dito de outra maneira, o que se propõe é criar espaços legais (e, em alguns casos, como na mobilidade e na saúde, necessariamente físicos) onde novas soluções possam ser experimentadas, desenvolvidas, aperfeiçoadas, dentro de um ambiente regulatório específico, mais livre, mas igualmente seguro. Ninguém quer ser o sítio onde se testam carros sem condutores sem quaisquer regras ou condições - já morreram pessoas reais assim. Mas as vantagens de ser o local onde se pode testar essas soluções, em ambiente real, traz enormes vantagens ao país. Ou pode trazer, pelo menos. Atrai investimentos, dá aos nossos prestadores de serviços a essas indústrias oportunidades que dificilmente teriam, abre portas para participarmos em projetos de inovação e desenvolvimento no mais avançado estado da arte e a possibilidade de participar em projetos financiados pelos fundos europeus (designadamente o sucessor do Horizonte 2020), porque se os testes são cá, algumas empresas, universidades e centros tecnológicos portugueses hão de estar envolvidos. E por último, mas não menos importante, permite que Portugal tenha a legislação mais avançada para responder à introdução de tecnologias e serviços disruptivos. Estar à frente do futuro. Dito assim parece tonto, eu sei, mas não é por acaso que o Reino Unido, para dar um bom exemplo, é escolhido para muitas das empresas lançarem os seus serviços ou produtos inovadores. É, também, porque o ambiente legal ajuda. E isso, obviamente, beneficia a economia britânica.

É tempo de pensar no futuro. Onde é que o país pode ser competitivo e como é que o Estado pode ajudar (de preferência sem se endividar ou nos taxar). Não há caminhos únicos, mas há alguns que fazem especial sentido. Este é um deles. A economia digital tem um enorme potencial disruptivo, como se sabe; e tem, não menos importante, a nosso favor o facto de a geografia não ser necessariamente determinante. Resumindo, Ana Teresa Lehmann tem uma boa ideia e, não é preciso ser um génio para adivinhar, certamente precisa de apoio de quem percebe o que está em causa. É que, nem que seja por comodismo - já para não falar em interesses instalados -, haverá resistências. Resta saber se também haverá apoios.

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