As primeiras europeias a sério

As eleições europeias são sempre percebidas pelos eleitores como umas primárias, ou intercalares, das respetivas eleições nacionais. Quando não são percebidas como coisa nenhuma. A reação tem, senão razão de ser, pelo menos explicação. Ninguém sente que haja um efeito imediato dessas eleições. E, de facto, não há; nem é muito bom que haja (porque isso significa que há constância e consenso). Mas isto pode mudar. Para pior.

Tradicionalmente, aconteça o que acontecer, no fim os populares e os socialistas europeus são os dois maiores grupos e têm distribuído entre si os principais lugares e garantido que nada de verdadeiramente decisivo é feito sem uns e outros. O que faz que a política europeia seja, no essencial, compatível com a maioria dos programas eleitorais de quem governa nos diferentes Estados membros. Parecendo cinzento e aborrecido, e sendo, isso tem a vantagem de não provocar ruturas nem divisões. A Europa não é - não tem sido - motivo de cisma entre os que governam na Europa (incluindo os moderadamente eurocéticos). E os que pensam de maneira muito diferente não se têm organizado. Por serem sobretudo nacionalistas, não se têm dado muito ao trabalho de fazer grandes alianças pela Europa fora.

"Olhando para o que se passa pelo continente fora, é muito provável que os socialistas tenham um resultado bastante mais fraco do que no passado, assim como os populares europeus podem, também, sair enfraquecidos"

Em Itália, na Polónia, em França, na Alemanha, em vários países da União Europeia, o que antes unia os partidos fora do consenso europeu era o que os separava: querendo menos Europa, não queriam uma política europeia comum do que quer que fosse. Agora, porém, há um tema que os une: os imigrantes e refugiados. E seja qual for a resposta que se dê a este tema, ela será europeia, mesmo que seja nada. É por isso que estas eleições podem ser as primeiras eleições europeias. As primeiras em que o resultado pode, de facto, mudar a política na Europa.

Olhando para o que se passa pelo continente fora, é muito provável que os socialistas tenham um resultado bastante mais fraco do que no passado, assim como os populares europeus podem, também, sair enfraquecidos. Pelo contrário, os partidos antieuropeus, e os mais radicais, têm crescido pela Europa fora. E não sendo certamente maioritários, se se unissem no Parlamento - coisa que nunca aconteceu, porque há sempre uns extremistas que se recusam a sentar ao lados dos outros - teriam um peso que nunca tiveram. Não seria decisivo. Não vão fazer maioria sozinhos, não vão impedir maiorias entre os partidos do grande centro (que vai do centro-esquerda ao centro-direita), mas podem vir a ser o primeiro grupo político europeu a corresponder, de facto, a um sentimento comum através da Europa. Será essa, de resto, a sua extraordinária contradição: os primeiros europeus a unirem-se de facto - para lá dos partidos - são os que têm em comum não quererem qualquer união.

Nas próximas eleições europeias, uns vão culpar a Europa pela globalização, os imigrantes e refugiados (mesmo onde eles são poucos ou irrelevantes), e os imigrantes, refugiados e/ou a globalização por quase tudo. Resta saber o que vão fazer os outros. Se ficarem calados, não haverá quem fale pela Europa.

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Patrícia Viegas

Espanha e os fantasmas da Guerra Civil

Em 2011, fazendo a cobertura das legislativas que deram ao PP de Mariano Rajoy uma maioria absoluta histórica, notei que quando perguntava a algumas pessoas do PP o que achavam do PSOE, e vice-versa, elas respondiam, referindo-se aos outros, não como socialistas ou populares, não como de esquerda ou de direita, mas como los rojos e los franquistas. E o ressentimento com que o diziam mostrava que havia algo mais em causa do que as questões quentes da atualidade (a crise económica e financeira estava no seu auge e a explosão da bolha imobiliária teve um impacto considerável). Uma questão de gerações mais velhas, com os fantasmas da Guerra Civil espanhola ainda presente, pensei.