Premium A Le Pen não se ganha assim

O público da Websummit não vota em Le Pen. É sobretudo por isso que deixá-la lá ir ou não é fundamentalmente espectáculo sem consequência. Ao público que vota Le Pen, os oradores de luxo da cimeira não dizem nada. Esse é que é o problema, e não se resolve assim.

O eleitorado da Websummit - a expressão é intencional - é optimista. Acredita no global, no empreendedorismo, nas energias limpas e renováveis, na mobilidade partilhada, no fim dos plásticos, na economia verde, na economia digital, no futuro em geral e nos benefícios de comer quinoa em particular. O eleitorado de Le pen está a milhas disso tudo.

Segundo uma sondagem divulgada pelo Nouvel Observateur (o L"Obs) em Abril do ano passado, a caminho das últimas presidenciais francesas, Le Pen tem os seus melhores resultados entre quem "tem o sentimento de exercer uma profissão em declínio", entre quem "vive com muitas dificuldades com o rendimento mensal", entre quem "tem menos rendimentos", entre quem "pensa que os jovens viverão pior". E que não come quinoa, aposto. É a esta gente que Le Pen se dirige, com crescente sucesso.

A cena que se segue passou-se há mais de 11 anos, a caminho das presidenciais e legislativas franceses de 2007, e resume-me bem o problema que ainda temos. Como então escrevi para a Atlântico "Marine Le Pen, (...) esperou que os restantes participantes no debate se calassem, abriu a carteira muito feminina e tirou lá de dentro dois alicates. "Este, diz "made in china", custou um Euro. Este outro ("made in France"), comprei-o numa loja de bricolage, custou doze Euros." Da mala ainda saíram mais uns quantos objectos semelhantes, até que a loira Le Pen disse o que se esperava: é impossível concorrermos contra estes preços. Temos de aplicar taxas alfandegárias diferentes, em função das condições socais dos países". (...)"

"O que mais impressionou no pequeno espectáculo não foi o que a senhora Le Pen fez ou disse. O circo é suposto vir incluído nas actividades de gente assim. O mais impressionante foi a falta de uma resposta firme e imediata."

Passados mais de 11 anos, é por tudo isto que a vitória de Macron foi tão importante. E tão diferente.

Durante as últimas eleições francesas, Macron teve coragem de defender aquilo em que acredita: a Europa, a economia de mercado, a protecção social, o empreendedorismo e a importância das empresas. Não interessa, aqui, se a sua ideia de Europa é a preferida ou preferível, ou se Macron é um social democrata moderno, um liberal social ou outra coisa qualquer. A questão é que Macron não se acobardou nem tentou dizer quase o mesmo, como os restantes daquele debate de há 11 anos.

O problema não é Le Pen falar ou não na Websummit, o problema é os moderados e com fé no futuro conseguirem falar ao seu eleitorado. E convencerem-no.

Consultor em assuntos europeus

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