A Europa pós-Trump

Os europeus têm o hábito de não gostar dos presidentes americanos, sobretudo se forem republicanos, mas de depender da sua política externa e de defesa para garantir a sua segurança. A maior novidade com Trump é que, além de não gostarem do presidente - e com várias boas razões, desta vez -, agora não podem ter a certeza de contar com as armas e o dinheiro americanos para defender os seus interesses. O resultado disto tem sido uma enorme discussão sobre a política externa americana atual, que ninguém parece conseguir definir muito bem qual é. Coisa interessante, mas em vez de discutirmos a América, é melhor começarmos a discutir a Europa e o seu papel no mundo.

Enquanto os americanos foram, ao mesmo tempo, polícias do mundo, nossos aliados e garantes dos nossos interesses (porque era suposto serem praticamente os mesmos que os dos Estados Unidos), pudemos, sem grandes preocupações, criticar-lhes as opções, fazer de polícia bom e viver às custas deles. Isso acabou. Não foi com Trump (Obama, seguindo Bush, já se tinha virado para o Pacífico), mas agravou-se. Até ao atual presidente, a América parecia disposta a pagar o preço de ser uma potência benigna. Claro que obrigava os aliados aos seus interesses, mas também sabia que tinha obrigações que iam para além do interesse estrita e diretamente americano. A doutrina atual, admitindo que Trump tem uma, parece ser a de haver uma leitura estreita do que é o interesse americano, e de esse interesse ser fundamentalmente comercial. O presidente porta-se como um negociante-em-chefe (aqui o gás; ali as armas; além o aço, e por aí fora) e não como um líder de aliados. De resto, sem ter decretado o fim da NATO, nem nada que se pareça, explicou que, se a aliança é importante para os europeus, eles que paguem a sua parte.

Tudo isto levanta, então, o problema: qual é a grande visão europeia sobre segurança e defesa? Quais são as prioridades da política externa europeia? Onde estão as nossas ameaças, e o que estamos dispostos a fazer quanto a elas?

Por muito que a ingenuidade otimista ache o contrário, não há política externa sem armas nem sem homens dispostos a morrer. Para haver armas, tem de haver dinheiro. Para haver homens que se manda morrer, tem de se ter medo de alguma coisa, e tem de haver um bem maior a proteger.

Em Bruxelas começou, recentemente, a discutir-se uma ideia de defesa europeia com muito mais músculo, que inclui um orçamento para investigação e aquisições em comum. É um salto. E, sendo pouco, é uma enorme transformação. Até recentemente, nunca foi suposto a Europa ser uma aliança militar ou ter, sequer, uma ideia de defesa comum (realista, leia-se, porque no papel havia e em algumas ações concretas, mas parcelares, também). Mas se passar a ser, e passar a ter de ter, a Europa muda radicalmente. Resta saber para quê e porquê. Se a América faltar, a Europa está disposta a fazer o quê para se defender de quem? Convinha trocar algumas ideias sobre o assunto.

Consultor em assuntos europeus

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