A culpa é vossa

Guy Verhofstadt, apesar de ser um dos deputados europeus mais importantes, além de líder parlamentar dos liberais e chefe do grupo de deputados que negoceiam o brexit, e federalista ativo, é um desconhecido da enorme maioria dos europeus. E não é estranho que assim seja, mas a questão, aqui, não é essa.

Há dias, Verhofstadt anunciou que chegando setembro ia propor qualquer coisa ao Parlamento para combater as fake news e a presumível e expectável intervenção russa nas próximas eleições europeias. Para o deputado belga, a Task Force que a Comissão Europeia anunciou para lidar com o assunto não é suficiente, falta um investigador como Mueller, o americano que procura aplicações entre Trump e Putin.

Para ser sincero, mesmo suspeitando que Verhofstadt está mais preocupado com o ruído político e com a possibilidade de acusar os brexiteers de cumplicidade com os russos, é possível que o deputado tenha razão. Complacência, indiferença e que inação podem ser más respostas por não serem resposta nenhuma. Mas há, ainda assim, duas coisas que têm de ser ditas: há uma diferença enorme entre notícias falsas e opiniões de que não gostamos. Combater as primeiras pode ser difícil, combater as segundas é perigoso. As más opiniões podem ser combatidas, as opiniões proibidas espalham-se em silêncio entre quem se sente acossado. A outra coisa que não se diz é que as próprias pessoas -quando são razoavelmente alfabetizadas - também têm culpa. E não é pouca.

Durante o campeonato do mundo voltou a espalhar-se pelo Facebook a história do suposto campeão português das olimpíadas de matemática de que ninguém falava. O caso é igual a imensos outros. Segundo a crença de que partilhava e se comovia com a notícia, o país era um bando de brutos selvagens que dava valor a quem dava pontapés na bola e ganhava milhões, mas ignorava um jovem esforçado e intelectualmente superior. Pelo contrário, claro, estas almas estavam isoladas no combate pelo que tem de facto valor. Na verdade, esta história, como todas as outras iguaizinhas, ensina três outras coisas. As pessoas acham sempre que têm muito melhores sentimentos do que o resto da humanidade, que os poderosos são perversos, e caem em qualquer patranha que corresponda aos seus preconceitos. E, além disso (ou por isso), não se dão ao trabalho de pensar sobre o que leem. Por todas as razões, estavam completamente disponíveis para acreditar na veracidade da história. Tanto que nem foram pesquisar nada sobre o assunto (se o tivessem feito teriam descoberto em duas googladelas que o moço da fotografia era ator pornográfico e que não havia olimpíadas da matemática nenhumas).

Os algoritmos, a disseminação da comunicação, até as novas formas de fazer guerra tornam tudo isto mais possível, mas há um ponto prévio que nenhuma proposta de Verhofstadt vai resolver: as pessoas acreditam no que querem acreditar. Se fossem um pouco mais críticas e lessem mais jornais (onde também há notícias falsas mas que são mais fáceis de confrontar) do que o mural dos amigos, talvez soubessem mais do mundo. E talvez culpassem menos os outros.

Consultor em Assuntos Europeus

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João Gobern

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