Passe único. Acabou-se mesmo a hipótese do café no autocarro

Tantas vezes, depois de comprar o passe, entro no autocarro e pergunto ao motorista quando vai ser servido o pequeno-almoço. A verdade é que por 165 euros - não é engano, o passe da TST de Setúbal para Lisboa, combinado com o Metropolitano e a Carris, custa esta fortuna - podia ter direito, pelo menos, a um café.

Ao mesmo tempo que entro no autocarro, o meu filho entra no comboio da Fertagus. São mais 120 euros, com desconto para estudantes. Gastamos 280 euros por meses em passes. Mesmo assim, muito menos do que representaria fazer o trajeto diário de automóvel, devido ao valor das portagens, do combustível, desgaste do carro... e o calvário do estacionamento. Além de que viajar de transportes públicos representa algum conforto: pode-se ler, ouvir música, dormir...

O passe único, no máximo de 40 euros cada, representa no nosso rendimento mais de 200 euros disponíveis, o maior aumento salarial que podia imaginar. Quem vive nas extremidades da Área Metropolitana de Lisboa sentirá de forma mais substancial os efeitos desta medida. Marques Mendes - e o PSD também - já apontou: "É uma medida eleitoralista!" Ah, pois é! Num ano em que há dois atos eleitorais - europeias e legislativas -, a medida que custa ao Estado 104 milhões de euros não deixará de compensar o descontentamento de alguns profissionais como os professores e os enfermeiros. Mas quem é que está contra ela?

Só que não chega baixar o preço do passe, é preciso criar melhores condições nos transportes públicos: ao longo dos anos, o número de carreiras tem vindo a diminuir. A Fertagus para Setúbal, fora da hora de ponta, só tem comboios de hora a hora. A partir das 20.45 acontece o mesmo com os autocarros da TST, alguns a juntar dois percursos. Em Lisboa, as esperas pela Carris chegam a ultrapassar meia hora, o metro 12 minutos! As previsões é que haja mais 10% de passageiros, é necessário acautelar resposta.

A frase de propaganda é que não podia ser melhor: "Custa mais acreditar do que comprar." Não consegui esperar pelo último dia do mês e esta segunda-feira comprei o passe. É mesmo verdade. Só paguei 40 euros e ainda fui informada na bilheteira que podia viajar de Mafra a Setúbal com o passe único... e em qualquer meio de transporte.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.