Obrigada, Humberto

Punha aquela cara de avô bonacheirão, dava uma pequena risada divertida e naquela disposição que parecia muito ligeira contava histórias de reportagens e falava-nos de coisas novas e complexas dos temas ambientais, como se fossem simples - pela sua voz, eram. Depois voltava aos seus artigos que, invariavelmente, versavam sobre projetos e políticas na área do ambiente (ou falta deles), nos quais dava voz a cientistas e especialistas (sabia sempre com quem falar), ou denunciava atentados ecológicos, que os havia por todo o lado.

Um dia passou-me uns papéis para a mão. Que os lesse. E falou-me da Cimeira do Rio, que seria daí a pouco e que, vaticinou, haveria de ser um marco importante para a consciencialização global dos problemas da ecologia e para as negociações que forçosamente teria de haver entre os países para salvaguardar o planeta.

O Rio de Janeiro acolheu nesse ano de 1992, em junho, uma cimeira das Nações Unidas, em que pela primeira vez estiveram presentes muitos chefes de Estado para falar das emergências ambientais, já então evidentes na perda de biodiversidade, na desflorestação acelerada dos "pulmões do planeta" - as florestas tropicais na América Latina e na Ásia - e nas alterações climáticas. Sim, as alterações climáticas, um problema de que ninguém falava na época, à exceção de uma restrita comunidade científica e de um punhado jornalistas. O Humberto Vasconcelos, que me fez ler aqueles papéis sobre o que estava em causa na Cimeira do Rio, era um deles. Foi pela sua mão que pela primeira vez me cruzei com o problema das alterações climáticas. E ele estava certo: a Cimeira do Rio foi o marco histórico que ele tinha previsto.

Ali foram aprovados os documentos fundadores do que viriam a ser as principais linhas de força das políticas internacionais (e nacionais) para o ambiente - a Convenção da Biodiversidade, a Agenda 21, que estabeleceu um novo padrão de desenvolvimento sustentável, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima e a declaração do Rio, conhecida por Carta da Terra. Seguiram-se anos de conversações difíceis para se chegar ao compromisso do Protocolo de Quioto, mas foi possível. Seria o primeiro instrumento no quadro da Convenção do Clima que permitiu baixar as emissões globais de dióxido de carbono. Depois disso, as conferências do clima ganharam crescente projeção junto da opinião pública. Apesar de as negociações serem difíceis e nem sempre chegarem a bom porto, as cimeiras do clima são um momento de renovada esperança para travar as alterações climáticas. Nestas alturas, lembro-me sempre do Humberto. De como percebeu o que estava em causa, e fez questão de partilhar o que sabia. Obrigada, Humberto.

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