Máscaras de beleza

Só muito tarde, já no final da adolescência, comecei a perceber que as mulheres usavam maquilhagem para lá do mero bâton. Sim, é parvo, mas a pura das verdades.

Nunca perdi muito tempo a pensar, como acho que nenhum homem faz, nos eventuais truques de maquilhagem para aperfeiçoar o rosto feminino. Contudo, lembro-me de que entrei na adolescência com um sobreaviso: as mulheres demoravam a arranjar-se não tanto pela eventual indecisão na indumentária mas sim por causa da maquilhagem. Tenho na memória a imagem da minha mãe a pintar-se em frente ao espelho do seu quarto enquanto o meu pai matava esse tempo com mais um e às vezes dois cigarros.

E sempre achei que era uma vantagem que as mulheres tinham, e têm, em relação aos homens. Elas podem mudar quando querem, através da maquilhagem, e nós ficamo-nos por ir ao baeta [cortar o cabelo, para os leitores mais novos] e "brincar" com o tamanho da barba, quando temos paciência para tal.

Nunca achei que a maquilhagem e as máscaras de beleza fossem uma obrigação entre as mulheres, mas sim um sinal de inteligência para potenciar o seu lugar no mundo demasiado pensado e liderado por homens. Felizmente hoje, passadas umas boas décadas, as coisas estão diferentes. A maquilhagem e as máscaras de beleza são uma escolha, usa quem quer e quando lhe apetece. E não é tanto uma máscara para vencerem num mundo que ainda hoje é demasiado masculino - e com muitos maus exemplos (Trump e Bolsonaro à cabeça).

Contudo, a admiração por essa diferença de género continua. Quase todos os dias, no meio do desenrascanço masculino dos três homens que vivem lá em casa, é natural e recorrente ficarmos os três, à vezes em conjunto, a olhar para a mulher que vive connosco no seu ritual de maquilhagem.

Não há que esconder, ficamos com cara de parvos a olhar para os detalhes e a panóplia de coisas que se usam. É como ver pintar um quadro que resulta sempre numa obra de arte.

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