Lembranças de conservas

Gosto de recordar pessoas pelas suas manias. Aquelas únicas e originais de que nos lembramos quando estamos longe ou temos saudades. Seja algo físico como uma maneira peculiar de mexer no cabelo para adormecer ou a forma de atender e mexer no telefone ou até mesmo o vestir uma certa peça. Lembro-me de uma certa forma de o meu avô pentear os seus já poucos cabelos num espelho oval com a figura de um jogador dos anos 1940 do Sporting. Ou da forma como o meu pai me dizia para ter cuidado sempre que ia fazer surf: "Não te afastes muito..."

São aquelas coisas que marcam a identidade de uma pessoa. Consigo catalogar, mentalmente, amigos e família por essas pequenas coisas.

E gostava de que, daqui a muitos, muitos anos, algumas das minhas manias fossem recordadas por amigos ou família. Embora, romanticamente, idealize coisas mais dignas como o meu vício de comprar revistas estrangeiras e livros, de saber tanto de música clássica como da última sensação de música alternativa.
Contudo, acho, aliás tenho quase a certeza, de que vou ser recordado por coisas mais pequenas e comezinhas. Como, por exemplo, chatear os meus filhos constantemente para terem boas maneiras à mesa. Mas há outra, quase que aposto, que vai ser recordada. É muito banal. Estas coisas fazem-se disso mesmo. A minha mania de comer conservas nas férias de verão. Não há coisa que me dê mais prazer. Seja no campo a olhar para a montanha ou no sul, à beira das águas mais quentes, parte da minha felicidade dos tempos de descanso está dentro de uma lata de conservas. Todos os dias, ao almoço, é a mesma coisa. Já nem me perguntam se quero alternativas. Sardinhas com ou sem picante. Atum ao natural ou com uma mistura qualquer gourmet que às vezes os supermercados do sotavento algarvio importam da vizinha Espanha. Abrir aquelas pequenas conservas é como abrir um presente que sabemos que vamos gostar. Agora, em tempos de pandemia do covid-19, já dei por mim a olhar para as latas de conservas que entretanto foram crescendo em quantidade na despensa. Devo ou não ligar um hábito de grande prazer aos tempos conturbados que vivemos? Será que isso vai ajudar-me? Estou a resistir, ainda tenho esperança de que a liberdade regresse com o verão e que os tempos sejam tão certos e prazerosos como abrir uma lata de conservas.

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