Weiner estilhaçou a sua carreira. Fará o mesmo com Hillary?

O lançamento de lama em período eleitoral não é uma especialidade só americana, está universalmente difundido. O interesse por escândalos sexuais também não é exclusivo dos Estados Unidos. Mas a corrida à Casa Branca tem um fraquinho por esses dois costumes. É assim que por a eleição se realizar sempre na primeira terça-feira de novembro, exceto quando o dia 1 calha numa terça (e nesse caso faz-se a 8, como neste ano), se cunhou uma expressão ao escândalo de última hora: "Surpresa de outubro."

Na verdade, a campanha de 2016 não esperou tanto. O candidato Donald Trump desde há meses que tenta passar a mensagem - num atalho de raciocínio tão típico nele - da incapacidade da adversária para governar o país já que ela não conseguiu governar a vida sexual do seu doidivanas de marido. Seja dito em defesa do republicano, ele próprio lança a lama, faz gala disso e, ao que parece, com proveito, pois sem grande mossa nas sondagens.

Por seu lado, a candidata Hillary Clinton também não se privou de sublinhar, logo no primeiro debate, a forma grosseira como Trump trata as mulheres. Foi o lamiré para que a campanha democrata expusesse os avanços sexuais não consentidos que ele se permitia com o sexo oposto. O clímax atingiu-se com a gravação, apesar de ser antiga, de 2005, que expunha um Trump a falar como um carroceiro sobre mulheres. Essa divulgação, a um mês do dia eleitoral, marcou o ponto mais crítico do candidato republicano.

A surpresa de outubro, a tradição tão americana, não só se tem cumprido como neste ano é disparada por uma metralhadora. E a última (ou talvez última) vítima pode ser a candidata democrata. Na sexta-feira, a dez dias de 8 de novembro, o diretor do FBI James Comey declarou que iria reabrir o dossier dos e-mails de Hillary Clinton, depois da descoberta de novas mensagens num computador de Huma Abedin, a mais próxima conselheira da candidata. As mensagens de carácter sexual para uma menor são de Anthony Weiner, marido de Abedin, de quem ela já se separou depois de vários escândalos dele.

Obcecado sexual, Weiner, que também é do Partido Democrata, já perdeu eleições para o Congresso e para governador de Nova Iorque por casos idênticos. Mas desta vez ele pode deitar a perder muito mais do que a sua tosca carreira política, e Hillary Clinton pode ser uma enorme vítima colateral. Com as candidaturas a aproximarem-se (a sondagem da ABC-Washington Post, ontem, dava uma vantagem para Clinton só de dois pontos, que já foram 12 há uma semana), Trump dá graças ao caso Weiner, a que já chama, com a sua conhecida moderação, "maior do que Watergate"...

As surpresas de outubro umas vezes são eficientes, outras não. Em 1964, quando o democrata Lyndon Johnson tentava repetir em eleição o que só conseguira por, como vice-presidente, suceder a John Kennedy, viu o seu conselheiro principal Walter Jenkins ser preso por atos homossexuais numa casa de banho pública. Washington, FBI e jornais não fizeram alarido e até o adversário Barry Goldwater não tirou partido, e perdeu. Trump não vai ser tão benevolente.

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