Grande coisa fez ele apesar dele

Peter, o garoto holandês, meteu o dedo na racha do dique e aguentou até que o viessem substituir - e salvou aldeia. É o típico herói, que sabe o que faz, quanto aquilo lhe pode custar, e faz. Günter Schabowski não foi um herói. Ele fez muito, o que fez mudou a História para melhor, mas não sabia o que fazia quando o fez. O que fez Schabowski? O contrário de Peter: rebentou um dique. Em 1989, esboroava-se o mundo soviético, o de um sistema antilibertário ilustrado pelo Muro de Berlim. O governo da Alemanha comunista ia cedendo aos tempos, ainda iludido de que seriam só um, dois passos atrás, para vir a retomar o controlo sobre a liberdade do povo. Na noite de 9 de novembro, os comunistas foram obrigados a continuar a ceder e prometeram mais umas medidas: que os postos entre as duas Alemanhas iriam permitir a passagem livre dos alemães. Quem deu a conhecer essa decisão foi o porta-voz do governo e do partido, Günter Schabowski. Um jornalista perguntou: "Quando?" Schabowski deu uma resposta displicente: "Tanto quanto eu sei, isto entra em vigor... agora, imediatamente." E, invadido logo nessa noite, o Muro caiu. Parece que há descobertas que se fazem de forma fortuita. A esse acaso bendito alguns chamam serendipity. Günter Schabowski morreu ontem e nem o respeito que se deve aos mortos nos permite considerá-lo um grande homem. Mas por causa da sua serendipity aconteceu coisa grande. Às vezes, pessoas menores entram na História.

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