Um drama, um feliz e bendito drama em que se plantou a maior das alegrias

Pela primeira vez, aguardando o começo do jogo, eu passei todo um dia, inteirinho, sem suspirar por uma cavalgada fantástica de CR7. Ontem, ainda antes do apito inicial, percebi que eu estava a ficar velho, 12 anos de adepto também moem. O meu sonho era ver se ele se ultrapassava como CR0,73. Só isso, só nisso estavam as minhas esperanças. CR Zero Vírgula Setenta e Três. Da última vez que o vi no ar, suspenso, ele tinha passado 0,73 segundos lá em cima. "Repete e melhora", pedi-lhe durante o dia. Comprei um nanocronómetro, para contar centésimos de segundo.

Mas cedo me convenceram de que devia era ter levado uma rede de caçador de borboletas. Maldita, agoirenta, a que se pousou na cara de Cristiano, ia o jogo nos primeiros olhares. A borboleta nos lábios e ele pousado por terra, derrotado. Nem corria, nem se elevava, nem já, quando corajoso insistiu, mancava. Chorava. E eu calei - era mais um encolher de ombros, mais um. Dói tanto.

Eu havia passado o dia a ler jornais franceses ("Aquele que é prudente e espera por um inimigo imprudente será vitorioso", Sun Tzu, A Arte da Guerra). Respeitosamente, comecei por uma instituição, L"Équipe. Foi lá que aprendi que falar de desporto podia ser uma arte. Em A Bola, com Carlos Pinhão, já sabia que com bola se podia fazer bom jornalismo. Mas, então (anos 60), ainda não conhecia os textos de futebol do brasileiro Nelson Rodrigues e os do uruguaio Eduardo Galeano. Só com as reportagens de Antoine Blondin, em L"Équipe, sobre o Tour e os JO, eu soube que a grande literatura podia ser feita com pequenos calções. "Ele desceu do selim e pegou na bicicleta pelas orelhas", disse Blondin, um dia, do ciclista que desistiu da etapa da volta a França.

Há muito que não lia L"Équipe com método, só lhe passava os olhos. Reparei ontem que os grandes textos podem desaparecer mas sempre ficam os bons sentimentos. Ontem, o jornal francês publicou duas capas. Uma dizia: "Le Jour des Seigneurs", e com foto dos franceses do recital esperado. A outra: "O Dia dos Senhores", em português e com os jogadores portugueses. Foi de repente que se me fez luz: mas quais bons sentimentos! Pelo contrário, malandrice: o que L"Équipe queria era desarmar a minha atenção do duelo. Quem se pode zangar com os que nos recebem com gentileza? Eu, ontem.

Passei para o Libération, em que pensei alimentar as ganas que precisava para o princípio da noite. Gostei do editorial em que se sublinhava, na atual equipa francesa, "o coletivo", "o grupo" e a "harmonia". Esta França parece nós quando andámos a recuperar da rebaldaria de Saltillo. Desculpem-me os mais novos, foi no Mundial do México, 1986, uma luta entre liberais e conservadores que dilacerou a pátria e durou a curar. Os franceses, agora, passavam pelo mesmo, intuí do editorial. Contentam-se com pouco, deixam de alinhar com um chantagista de vídeos sexuais dum colega, e já se consideram "um grupo unido"... Ide por aí, que já vos comemos daqui a pouco.

Mais, diziam-me os jornais: perdem a carranca de Ribéry - desculpem a linguagem, estou a escrever ontem, em pré-batalha, quando não se limpam armas - e já suspiravam com a carinha mignonne do novo genro preferido de França, Griezmann. Se para Cristiano me armei com um cronómetro (e falhei a rede de borboletas), para analisar melhor Antoine Griezmann, prometi comprar, se o azar estivesse para aí virado, as Marie Claire e Madame Figaro desta semana.

Entretanto, vários jornais garantiam-me a declaração duma ministra francesa, em Genebra: "Griezmann fez a felicidade de toda delegação francesa para os Direitos das Mulheres." E Marine Le Pen tuitou: "Griezmann é um jogador encantador." Ontem, a França, antes do jogo, ainda estava sob o ancien régime no que toca ao futebol. Os portugueses, não. Vinham de longe, de muita desfeita, esperanças desmedidas sempre mal acabadas, a ponto de já nos terem incutido a dúvida: não estaremos, mesmo, acima das nossas possibilidades? A ser verdade, era a estocada final: até no futebol...

Foi assim que cheguei às 20 horas, não sem ter lido, em vários jornais, depoimentos de luso-franceses, de segunda e terceira geração. Surpreso, desse povo que desapareceu na paisagem francesa, franceses que só o patronímico, quase nunca o nome próprio, indiciava a origem lusa, que já sabia escolher um Pont-l"Évêque e nunca comeu um queijo de Nisa e a quem até a nossa língua lhe escapa - de gente dessa, luso-franceses, franceses de todos os dias e orgulhosos de o serem, li haver uma dúvida: naquela noite que eu esperava, hesitavam em quem apoiar! Uma Mélanie Branco, mulher de sucesso, conselheira do ministro francês dos Desportos, dizia ao Libération: "França ou Portugal, não sei ainda por qual gritar..." Fizeram-me mossa os testemunhos. Antes das 20 horas, concluí que eles me diziam quanto o futebol é profundo e estranho.

Houve, então, aquele minuto, que julguei fatídico, da borboleta. Acreditei, descrente, no último arreganho de Cristiano. Mas desanimei quando ele saiu de vez. Depois, dei por mim a acreditar, outra vez. Estranho, costumava levar dois anos ou quatro, mas não, ontem eu recompunha-me no espaço dum jogo. Qualquer coisa que ancorava dizia-me: talvez. Rui Patrício? Estava lá. Pepe e Fonte, donos. Raphaël, sempre... E assim por diante. De trás para frente, como deve ser. O nanocronómetro já o esquecera, agarrei-me a contar minutos cada vez mais longos, mas as metas semiterminais, 45, 90, 110 m, iam sendo ganhas. Até que, até que, Éder... Sou tão feliz.

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