Trump, o peru presumido

O Dia de Ação de Graças, feriado celebrado nos Estados Unidos na quarta quinta-feira de novembro (voltou a acontecer ontem), é para agradecer o bom ano que se teve quando ele chega quase ao fim. A tradição remonta, diz-se, à chegada dos Pais Peregrinos, os colonos calvinistas ingleses que em 1620 desembarcaram no Massachusetts, no Nordeste do que viria a ser os Estados Unidos.

Há images d"Épinal, para me socorrer de um termo francês sobre estampas ingénuas, coloridas, moralistas e populares, do encontro entre colonos e índios. Os puritanos, muito tapados e com chapéu negro de copa alta; os índios, de tronco nu e cocar com espalhafatosas penas. Num famoso quadro, que está no Congresso, em Washington, ambos confraternizam, a convite dos peregrinos, no primeiro Dia de Ação de Graças na América. E comiam peru.

A colónia tinha um provérbio que dizia: "Se quiseres ir em frente, usa um chapéu." De facto, os do cocar com penas não foram longe. Os outros, sim. Aliás, só o facto de serem os recém-chegados a convidar e a oferecer para comer não o que haviam trazido, mas o que era nativo, anunciava a história inversa das duas comunidades. Os colonos ofertavam o que era dos outros e ainda por cima os outros ficavam agradecidos... Práticos e ambiciosos, os novos americanos aproveitavam tudo para croquetes. Em todo o caso, ao pobre do peru calhava sempre o lado mais tostado da festividade e assim ficou até hoje. Tostado ou estufado, cozido e abusado com molhos vários. No ano passado, 46 milhões de perus não devem ter achado graça ao Dia de Ação de Graças.

É feriado nacional (chamam-lhe, por lá, Thanksgiving), e foi marcado inicialmente para ser na última quinta-feira de novembro. Em 1939, calhou haver cinco quintas-feiras no mês e Franklin D. Roosevelt decidiu antecipar o feriado para a quarta quinta-feira. Isto é, o presidente forçava uma tradição religiosa e nacional porque, assim, alargava também uma semana à época das compras, até ao Natal - e isso era bom para a economia a sair da Depressão. Como vos dizia, um povo prático. É bem bom aprender com eles que a política pode ser subtil mesmo à volta de uma coxa insípida, como são sempre as dos perus.

Este ano, lá tivemos o primeiro Thanksgiving do presidente Donald Trump. Já me esquecia (não me esquecia nada, isto é um truque de cronista para não deixar adormecer o gentil leitor), já me esquecia do perdão ao peru. Conta a lenda que Lincoln não mandou matar o peru lá de casa porque um dos seus filhos estava afeiçoado à ave. Mais próximos de nós, um presidente democrata, Kennedy, e um republicano, Reagan, instituíram a tradição de perdoar o peru que lhes era apresentado, na Casa Branca, dias antes do Thanksgiving.

O peru apresentado ao presidente e ao povo, através das tevês, será perdoado com pompa e até lhe conhecemos o nome. Mas, na verdade, dias depois, no Thanksgiving, o presidente magnânimo irá comer outro peru, provavelmente já a marinar quando o agraciado se tornava famoso. O "perdão do peru" é talvez uma forma envergonhada de esquecer o pecado original exposto no tal quadro do Congresso (O Primeiro Dia de Ação de Graças, do pintor Jean Louis Gerome Ferris), pintado em 1899, sobre uma cena de 1620, e que ainda hoje nos deixa um travo amargo. É difícil olhar a pintura sem evocar o que vai suceder aos índios pelos séculos seguintes. Os perus não me comovem, mas, já agora: o peru perdoado é enviado para quintas românticas, jardins zoológicos com veterinários ou até para a Disneylândia. Mas, engordado à força para impressionar na cerimónia do perdão, nenhum peru agraciado chega ao Dia de Ação de Graças do ano seguinte...

Então, na terça-feira passada, Donald Trump perdoou o seu peru, aliás, dois, o Drumstick e o Wishbone. O presidente estava na sua casa de Mar-a-Lago, em Palm Beach, Florida: "Que grande bicho", disse de Drumstick, que pesava 35 libras (16 quilos). "Oh Drumstick, penso que vais ser muito feliz", disse ainda Trump. E era aqui que podíamos aproveitar para atacar Trump... Que cinismo ao dar falsas esperanças à pobre da ave - falsamente perdoada, ela irá morrer em breve. Então, o sonso não sabe que aquela gordura do pobre peru, certamente imposta para abrilhantar a festa, lhe irá entupir as veias (se é que os perus têm veias e, a ter, se entopem)?

Quando Trump se aproximou de um dos perus, perguntou ao funcionário, baixinho: "Posso tocar nele?" O episódio deveria fazer-nos lembrar o que ele disse de si próprio (não outros sobre ele, não, mas ele sobre ele): nem sempre Donald Trump pediu antecipada licença a outros seres vivos para tocar (e até agarrar) neles (aliás, nelas)... Não haveria, nesta semana do peru, mais uma boa oportunidade para novas investidas contra Trump? Tal como, durante o ano inteiro, sobre os seus tweets. Ou nas dezenas de vezes que se comprovou que ele é incapaz de fazer o seu trabalho. Ou nas tantas que ele confirmou que é, ele, Donald Trump, atual presidente do país mais poderoso do mundo, ignorante.

Quero eu dizer, podia aproveitar-se as levezinhas circunstâncias do Drumstick e do Wishbone (não, leitor adormecido, não considero haver culpas de Trump na história dos perus, só insanável falta de jeito) para mais uma vez trazermos Trump à sua condição de imperdoável. Acontece, porém, que quando os espantos são muitos diluem a indignação. Trump inocula-se-nos em repetidas doses e um dia acordamos habituados a ele.

Por isso há um Trump que prefiro. Aquele de um dia já longínquo em que ele foi o Trump essencial e eterno, isto é, rasteiro e inexistente. Disse para vizinhos ouvirem: "Vou construir o muro, os mexicanos é que o vão pagar mas eles não sabem." Humilhar os outros, o maior dos vícios num homem comum, o mais perigoso num poderoso. Por falar em Dia de Ação de Graças, não perdoo a este peru presumido.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG