"Regresso ao Futuro" e regresso ao passado

Falou-se muito, ontem, do Regresso ao Futuro, a popular série de três filmes de ficção científica. Durante a nossa madrugada, a equipa de basebol Chicago Cubs ganhara o campeonato americano (hiperbolicamente chamado World Series, como se fosse mundial) de 2016. No Regresso ao Futuro II, o herói, Marty (interpretado por Michael J. Fox), vindo dos anos 80, viaja com a máquina do tempo a 2015, e dá-se conta de uma notícia sobre a equipa de Chicago - transmitida por holograma futurista, como se pensava, em 1985, que seriam os dias de hoje. Desde então correu o rumor de que o filme anunciou a vitória dos Cubs em 2015. A ser verdade, atrasou-se, afinal, um só ano, mas não deixa de ser uma coincidência tremenda: há mais de um século, desde 1908, os Cubs perseguiam a conquista que já parecia mais uma maldição.

Mas a famosa série (filmada entre 1985 e 1990) liga-nos à atualidade por outra razão, que não merece tantos festejos, muito pelo contrário, muito pelo contrário... No ano passado, o argumentista Bob Gale revelou que o mau da fita, o horrível Biff Tannen, foi inspirado em Donald Trump, cuja fama, pelos vistos, vem de longe. Na sequela, as relações são evidentes. Alourado, Biff é um grosseiro milionário que investe num casino de 27 andares, numa mistura do que Trump teve ou tem em Atlantic City e em Las Vegas. Numa das cenas, vê-se Biff, no seu gabinete, posando com a ostentação do verdadeiro Trump. Nessa cena, também aparece o almanaque de resultados desportivos, uma constante nos três filmes. A posse do livrinho e das suas informações permite, ao regressar ao passado, a aldrabice de jogar em resultados que se conhecem - o bandido Biff luta por ter esse maná.

No primeiro filme, o retrato do carácter de Biff Tannen cola com o atual candidato republicano. O jovem Marty viaja a 1955, quando ainda não havia nascido, e pela primeira vez vê Biff. Este é chefe daquele que virá a ser o pai de Marty. E as primeiras palavras que o viajante do tempo ouve de Biff são de ameaça de despedir o seu empregado. The Apprentice, o reality show de Trump, só apareceria no canal NBC 20 anos depois da realização do filme, mas o gosto por "estás despedido!" já lá estava, premonitório. Biff, à frente de Marty, agrediu o pai deste, num símbolo maior do que é a falta de compaixão - tão exemplarmente descrita no romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski...

Exagero e má vontade contra o candidato Donald Trump? Exatamente. A que apetece ter com alguém que gozou com um jornalista por ser deficiente e insultou os pais de um herói de guerra morto em combate. Por falar num tipo assim, no segundo encontro que Marty tem com Biff, este apalpa a jovem Lorraine, que virá a ser a mãe de Marty. Não vos lembra ninguém, um arrogante que se comporta assim com as mulheres?

Regresso ao Futuro, pois, um filme que nos lembra demasiado um candidato de regresso ao passado. Ao séc. XIX, quando a petulância dos milionários ainda não tinha sido posta no seu lugar, educada (escondida, pelo menos) pelos movimentos sociais. Ah, e outra coisa: se no Regresso ao Futuro II há uma cena que diz que os Cubs vão ser campeões em 2015, no filme seguinte a máquina do tempo é destruída e não ficou garantida, apesar da lenda, a vitória da equipa de Chicago. Infelizmente, as boas sondagens de Trump para a próxima terça-feira não podem ser também destruídas. Biff Tannen, ou alguém por ele, pode mesmo vir a ser presidente da maior nação do mundo.

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