Os olhos que Costa devia ter olhado

É um velho debate, os bons políticos são para nos governarem bem ou para nos acalentarem? A resposta que parece ser a evidente pode não ser a certa. Se calhar houve políticos que não chegaram a bons políticos porque não tiveram as palavras certas connosco. Se Churchill ganhou a guerra com os ingleses foi também porque fez os grandiosos discursos com que galvanizou o seu povo. A ministra Constança Urbano de Sousa arrisca-se a que nunca saibamos se poderia chegar a boa ministra. O que não quer dizer que tenha já dado provas de que é má. Foi relacionada com duas tragédias - enormes e consecutivas - mas não é clara a sua responsabilidade. Já é porém clara a infelicidade da sua frase sobre as férias que não teve, dita no dia em que outros deixaram de ter muito mais. Ontem, António Costa, que não tinha, como a sua ministra, a espada de Dâmocles pendendo sobre a cabeça, cometeu também um erro, nem tanto de palavras mas de emoção, ou melhor, de falta dela. É certo que o assunto que ele tinha para tratar connosco é um problema nacional. Mais, é mesmo uma causa nacional a exigir uma solução rigorosa. Portanto, soaria até a abuso ele ir por uma proclamação fácil só para animar o pagode (embora, confesso, tivesse Costa dito que arrasava os eucaliptos de norte a sul eu ficaria empolgado). Mas ele não foi por aí, insistiu em dizer que ia seguir os conselhos da comissão de sábios que analisou os incêndios... Talvez amanhã nos prove que vai governar bem. Mas ontem falhou em nos cativar. Faltou-lhe olhar, antes de nos falar, a foto do camponês de Ventosa, Vouzela - fotografado por Adriano Miranda, no Público. Mãos calosas no cajado, cajado no peito e olhos tão tristes, frente à casa que já não era dele. Depois de o olhar demoradamente é que António Costa nos devia ter falado.

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