O irreflectido dia de reflexão

No dia de reflexão, os portugueses vêem-se ao espelho, reflectidos: inventores de costumes tolos. Como este sábado de reflexão. Hoje, se vos tenho de dar cavaco, logo tenho de acautelar: "Salvo seja..." Se me descrevo "acordei alegre", tenho de acrescentar: "Nada a ver, claro." Não fossem vocês, e a Comissão Nacional de Eleições, pensar que eu estava falar com maiúsculas. Reflexão, pois, cada um de vós como aqueles macaquinhos de mãos tapando olhos e ouvidos. E eu fazendo do macaquinho com as mãos a tapar a boca. Significa isto que se um candidato - dos que, na última quinzena, abriram telejornais dizendo banalidades - tivesse revelado, ontem à noite, o segredo da cura do cancro eu não poderia hoje dizer- -vos. Teria de esperar por segunda-feira, data em que se espera que os portugueses voltam a ser legalmente irreflectidos, para vos dar a novidade. O dia de reflexão trata-vos por parvos temporais, portugueses: 24 horas antes de votarem, vocês são demasiado permeáveis às minhas manigâncias... Ora isso, além de me dar ideias malandras (se faço bem as contas ainda me restam 43 776 horas num mandato de cinco anos para vos manipular...), ignora que, se as televisões e os jornais calam, a Internet não fecha a loja ao sábado de reflexão. Pode ser consultada, no telemóvel, até na fila antes de votar. Hoje, tapar a informação é o mais inútil (e irreflectido) dos exercícios.

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