O discurso de António Costa no Ano da Cabra

Comemorava-se o Ano da Cabra, eis o que não é de esquecer! Se fosse no signo passado, do Ano do Cavalo - de alto astral e cheio de aventura - o discurso a condizer poderia ser a espingardar. Se fosse no próximo, Ano do Macaco, seria um discurso de improvisos, logros e nada convencional. Mas não, não foi antes nem depois, foi neste ano que a Liga dos Chineses em Portugal convidou António Costa, para lhe dar um prémio.

Aliás convidou ainda, e também para prémio, o secretário de Estado das Comunidades. Que, infelizmente, não pôde estar presente. E convidou o secretário de Estado adjunto do ministro adjunto que tem o pelouro da imigração, também para prémio, mas ele mandou o chefe de gabinete. Que, infelizmente, "de repente, ficou adoentado", lamentou o presidente da Liga dos Chineses em Portugal Y Ping Chow. Enfim, lá apareceu um substituto de um departamento, que disse o seguinte: "Como veem, não sou o secretário de Estado, não sou o chefe de gabinete e não estou doente..." Os chineses, que são gente de ligar ao protocolo, devem ter apreciado... Mas, como são muito delicados, são capazes de inventar para convites a secretários de Estado, além dos 12 do horóscopo chinês, o Ano do Cuco, animal que raramente é visto.

Cágados, os chineses, apostaram, então, em António Costa. Conhecem-lhe o ar pachola, a voz pausada, o sorriso búdico (ou, se calhar, simplesmente conhecem o calendário eleitoral e leem as sondagens) e acharam ser agora altura de o homenagear. Porque este é o Ano da Cabra. Aquele que tem por flor o narciso, por bebida a água mineral, por animal o rouxinol e por fragrância o óleo de bergamota. Resultado, levaram com um discurso digestivo (água mineral), cheio de trinados (rouxinol) e cuja essência (bergamota) combate o stresse, acalma. Perguntará o leitor: mas por que razão veio à baila o narciso? Não sei, mas sei que ele é também um dos símbolos do Ano da Cabra, e o Narcissus L. é um género botânico cujas flores vão do amarelo ao branco, o que calha bem em Costa.

Entretanto, na festa, falou o deputado Vitalino Canas, presidente do grupo parlamentar de Amizade Portugal-China. Por brincadeira, Canas, lembrando que na semana anterior fora lançado um semanário em chinês e nesse dia se inaugurava a Comunidade Chinesa TV (CCTV), avisou que iria falar pouco: "Como estamos no mundo dos media, agora temos de ser um bocado mais cuidadosos..." Enfim, avisos premonitórios a que ninguém ligou porque se sorria por o tripeiro Sr. Y Ping Chow - neto do pioneiro chinês que apareceu no Porto, há 80 anos, a vender gravatas de seda - ler a sigla do novo canal televisivo CCTV, desta forma: "Ciêe, Ciêe, Tebê."

No fim da festa, a Liga dos Chineses em Portugal, que convidara Costa, à espera de ouvir um discurso digno do Ano da Cabra, lá o teve. Discurso, de dois minutos e picos, virado para a frente, como devem ser os discursos, olhando o público. António Costa, que pode parecer sorna mas tem os olhos abertos, percebeu que a plateia tinha os olhos rasgados. Dias antes, em Badajoz, ele falou para os seus camaradas do PSOE. E como, então, ele teve o cuidado de não falar de dinheiro dos socialistas espanhóis investido na compra da EDP, agora, frente à comunidade chinesa, não defendeu os ideais do socialismo. Como diz um provérbio de Zhejiang, a província de onde vieram os Chow: "O segredo para se andar sobre as águas é saber onde estão as pedras."

Como era o suave Ano da Cabra, António Costa invocou os valores "da tolerância, do diálogo e da paz". E como estava a falar com gente que anda a meter dinheiro por todo Portugal, lembrou: "Como nós dizemos em Portugal, os amigos são para as ocasiões, e numa ocasião difícil (...) a verdade é que os investidores chineses disseram "presente"." Ora, como quando se anda sobre as pedras toda atenção é pouca, Costa distraiu-se. Continuou, num elogio aos chineses - "deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar na situação em que está hoje, bastante diferente daquela em que estava há quatro anos" -, sem se dar conta de que outros podiam desviar o elogio.

Foi o que aconteceu: "Ele elogiou-nos! Ele elogiou-nos!", gozaram os do governo. Se calhar, António Costa devia fazer um discurso à Ano do Macaco. Astuto, manhoso: "Então, vocês investiram na EDP, num país que se tornou um beco escuro?!" Seria respeitado cá fora. A plateia é que não percebia.

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