Nunca é tarde: um conto de Natal

Já passou a quadra, mas não muito, deixem-me contar uma história de Natal. Não sei se se lembram de um pormenor do atentado em Manchester, em maio passado. Dele eu só tinha uma vaga ideia - tive de recuperar as histórias nos jornais de então para também eu me recordar. Um bombista suicida fez-se rebentar no pavilhão Arena, no fim do espetáculo de uma cantora para adolescentes - entre as vítimas, 22 mortos e 59 feridos graves, havia várias crianças. A tragédia já banalizada, para a qual não temos explicação, como se pudesse haver explicações para uma pessoa inocente ficar sem pernas porque outra pessoa tinha um caderno de queixas... Estupefactos, agarramo-nos às palavras, de raiva ou de perdão e de reação resta-nos o acender de velas. Que mais fazer? Talvez procurar o pormenor que nos acalme a impotência.

Procurar uma pequena luz de esperança naquele absurdo. Uma bondade, um gesto de coragem, qualquer coisa que sirva de benefício colateral, saído da pior das maldades, a gratuita. Daquela vez, no atentado no Manchester Arena, até houve essa luz, aquele pormenor que, se não salva, apazigua. Nas portas envidraçadas do pavilhão, Chris Parker, um sem-abrigo, esperava o fim do espetáculo. A multidão já descia as escadas largas para o átrio e o mendigo dirigiu-se a ela para pedir esmola. Os jornalistas que acorreram recolheram ainda nessa noite o testemunho do vagabundo.

"Ouvi um bang! e, no instante seguinte, um raio de luz", contou Chris Parker, de 33 anos (curiosa idade, a de Cristo). A BBC mostrou-o de gorro recolhendo os cabelos longos, a cara magra emoldurada por barba não cuidada, olhos febris, peça de roupa sobre peça, cumprindo a única função de aquecer. Ele contou o horror. "Vi uma rapariguinha... ela não tinha pernas." Ele agarrou numa T-shirt de um expositor e envolveu nela a menina: "Perguntei-lhe "onde está a tua mãezinha e o teu paizinho?", ela disse-me "o meu pai está trabalhar e a minha mãe estava ali"", contou Chris Parker aos jornalistas. E também sobre uma mulher gravemente ferida nas pernas e na cabeça: "Morreu nos meus braços." O testemunho passou na BBC e foi publicado em jornais.

Reparem, um relato sem bravura nem heroísmo. Só de um homem que estava na tragédia alheia, entrou nela sem nada mais dar do que estar ao lado das vítimas. Na caixa de comentários dos jornais, leio a comoção, frases curtas como se deve para os momentos de verdade. "Abençoado"... "Um homem"... "Um bom homem"... "Cavalheiro"... e "Respect", como tão bem se diz em inglês "tiro-te o chapéu"... Mas, como sempre aparece nas comoções, um tipo, Ray Evans, de Aberdeen, achou que tinha de dizer coisas: "Estou confuso como ele ouviu um bang! e depois viu um flash. Desafia a ciência..." Há sempre disto, gente que desconversa sobre isto e aquilo, cita certezas e leis científicas, quando se está a falar sobre coisas fundas e emotivas. Calaram o cínico, e bem. E foi bom saber-se que um grupo de cidadãos fez uma coleta na net e recolheu 52 mil libras (58 500 euros) para resgatar da rua o bom vagabundo.

Ora, soube-se nesta quarta-feira, 3 de janeiro, que Chris Parker confessou a um juiz que, no átrio do Manchester Arena, roubou a carteira de uma mulher gravemente ferida, com a neta dela ao lado, morta. Horas depois, ele utilizou o cartão de crédito num restaurante McDonald"s. E confessou ter também roubado o telemóvel de uma garota ferida. As câmaras de vigilância mostraram ainda o vagabundo a deambular entre feridos, a fotografar vítimas - imagens que tentou mais tarde vender a jornais. A sentença de Chris Parker será ditada no próximo dia 30. Sendo certo, filmado e já confessado que ele cometeu os crimes, a polícia está convencida de que ele prestou "alguma assistência" às vítimas.

E é este o sentido principal deste conto de Natal: a vida é assim. Só tipos como o que apareceu numa caixa de comentários anunciando uma lei física - a luz (o flash de uma explosão) propaga-se mais depressa do que o som (o estrondo da bomba), e não o contrário -, só tipos como o tal Ray Evans, de Aberdeen, desconfiados desta vida, estão sempre certos. Parabéns à prima. Ainda bem que o resto do género humano tem esse sentimento talvez inútil de nos comovermos com patifes. Afinal, o melhor conto de Natal do mundo, Um Conto de Natal (A Christmas Carol) foi escrito por Charles Dickens para denunciar o capitalismo sem coração da Revolução Industrial. O avarento patrão Ebenezer Scrooge - escreve Dickens - só faz o bem ao fim de três almas penadas lhe aparecerem a ameaçar que ele irá morrer sozinho. Então, por interesse, ele ajuda o Pequeno Tim, o filho deficiente do seu empregado a quem ele pagava miseravelmente.

Mas o que nos acontece quando lemos Um Conto de Natal? Quando me calhou lê-lo, chorei comovido pela "bondade" do velho Scrooge "arrependido". Não estou arrependido. Também Dickens começou por publicar A Christmas Carol numa edição de luxo, que não estava ao alcance dos pobres operários a que ele defendia. Mas foi tal o sucesso que, na morte de Dickens, em 1870 - e isto não é romance -, as crianças perguntavam: "Morreu Dickens? Morreu também o Pai Natal?"

Que ao vagabundo trapaceiro Chris Parker lhe seja descontado na pena o bem, apesar de falso, que nos fez num dia todo ele mau. A desilusão com ele não é mais nefasta do que a ilusão que ainda continuamos a ter com o acender de velinhas após cada atentado.

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