Não saiam sem guarda-chuva

Às vezes, tão distraídos estamos com o camião espalhafatoso a toda a velocidade, corremos o risco de ser atropelados por um Carocha. Guerras das grandes pensamos sempre na II, decidida por um louco varrido. Ora, o cenário que deveríamos temer é o da outra, a I, que deu origem à II, e em malefícios valeu por si própria (17 milhões de mortos). É tão parecida com o que vivemos: "É como o dia antes da I Guerra Mundial", disse, há dias, Donald Tusk.

Ele, que não é um qualquer, é presidente do Conselho Europeu, a instituição que "define as prioridades políticas da UE", falava da crise dos refugiados, relacionando-a com as consequências do Reino Unido sair da UE, o famigerado Brexit, e do desmoronar seguinte do castelo de cartas. Estamos a ver o desastre a vir e tudo se torna mais espantoso pelas razões irrisórias: a chantagem de David Cameron sobre os seus aliados nasce de problemas domésticos. Os conservadores têm de se afirmar à sua direita, tentada eleitoralmente por radicais isolacionistas... Como se os outros governos europeus também não fossem pressionados eleitoralmente.

O desastre espreita, como insiste, hoje, no Guardian, o colunista Michael White. O título é: "Está o mundo a deslizar para o desastre? Talvez". No último parágrafo, ele finge esperar por finais felizes. Na América, talvez Hillary ganhe ou Bloomberg surja. A Europa talvez sobreviva intacta. Os refugiados sírios talvez regressem. O populismo europeu talvez cesse de crescer... Porém, White previne: "Mas não aposte nisso, não saia sem guarda-chuva." O tempo ameaça mudar. Última frase: "Era um encantador verão, o de 1914."

O império Austro-Húngaro não queria a guerra, a Sérvia também não, nem a Rússia, Prússia, França, Inglaterra... Mas o arquiduque Francisco Fernando foi passear para Sarajevo. E, como um castelo de cartas o velho mundo suicidou-se. Nunca se subestime a capacidade de auto-destruição dos poderosos.

O noticiário aí está, com a ainda há pouco estabilizada Turquia a dar um tiro no pé, intervindo a sul, contra a fraca Síria, como se isso não levasse à reação, a norte, da forte Rússia. Entretanto, há quem se preocupe com o essencial: "Presidente do Eurogrupo afirma existirem preocupações graves com Portugal." Muito embora, Portugal esteja bem capaz de responder às preocupações: "Pilotos recebem instrução em aviões da Guerra Colonial." É uma primavera feia e tempestuosa, mas talvez tudo acabe melhor do que há cem anos.

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