May tropeçou e Trump não caiu

Uma quinta-feira compacta, tipo juntar o brexit e a eleição de Trump no mesmo dia. Um bi-terramoto, só que ao contrário: a primeira-ministra britânica, que aceitou a saída da Europa, caía, e o Trump esbarrava no impeachment como político abrasileirado que é. Parecia um cenário um pouco doido, causado pelo nosso desespero por 2016, o ano de todas as espantações - mas, afinal, confirmou-se. Quer dizer, confirmou-se que o desespero não é bom para prognósticos.

Esperava-se demasiado, como é próprio dos assomados por um, perdão, dois, estupores. Ei, não insulto pessoas (embora num dos casos fosse legítimo), mas caracterizo o assombro causado pelo referendo britânico do ano passado e pela eleição americana do..., desse, em novembro do mesmo infausto ano. São tantas as ganas de desfazer ambos os despropósitos que, à menor ocasião para se esperar, deitam-se foguetes.

Então, se coincide a cajadada ser dada no mesmo dia a dois coelhos (estou a falar de política internacional) é porque os astros, os búzios, as cartas, qualquer dessas coisas próprias para alimentar análises políticas, estão mesmo a anunciar grandes notícias! Se prometerem não espalhar, vou confessar-vos a quão crédulo eu cheguei... Ontem, li uma descrição de Theresa May, "ela tem olhos de lebre encandeada por faróis", e vi nela uma premonição: "Olha a coincidência de eu ler isto hoje! Ela é mesmo da família dos coelhos, só falta o outro..."

Estávamos assim. Ainda por cima era um dia ímpar e também nisso vi um sinal... Ah, ontem era dia 8? OK, enganei-me. Mas o que interessa é que tudo apontava para que ontem o brexit acabava, o Trump voltava à sua condição televisiva de Kardashian sem nádegas e se ao pacote (outra vez, nada de pessoal, refiro-me ao tandem político anglo-saxão do nosso descontentamento) se juntassem também os alguns trumpistas que poisam na caixa de comentários desta crónica, ontem augurava ser um dia perfeito.

Ora bem, o meu estado de ânimo era esse, excitado, o que não abonava muito à ciência das previsões. E estávamos assim, é esse o problema dos crentes, sem que nada da realidade de ontem (e falo daquela que já anteontem se podia saber) levasse a supor que 8 de junho de 2017 pudesse ser um glorioso dia. Comecemos pelo evento mais próximo, as legislativas britânicas.

Como escrevia em título, ainda ontem, o jornal espanhol El País: "O Reino Unido elege hoje quem vai negociar o brexit com a União Europeia." Quer dizer, o resultado, ganhasse o Partido Conservador ou o Trabalhista, o brexit é para prosseguir. Foi a tarefa a que se deu Theresa May ao ir liderar o governo (apesar de ela ter feito campanha no referendo pela continuação na Europa) e era a que se daria Jeremy Corbyn, um manhoso que deixou o brexit ganhar, quando o seu partido era contra. E, sinceramente, se era empolgante ver um grande país recuperar-se, no espaço de um ano, de um tiro no pé, uma vitória da May dos olhos de lebre encandeada ou do Corbyn de olhos de carneiro mal morto não são merecedores de nenhuma excitação para cá da Mancha. Que May acabe por se aliar ao UKIP ou que Corbyn acabe de todo, é um não acontecimento que nem merece eu estar à procura de um substituto para o irrelevante slogan "que junho acabe com May [maio]".

Escrevo esta crónica antes de se conhecerem os resultados, mas os para celebrar não entram na categoria do terremoto acima referido, mas na do milagre. O partido LibDem seria o único a pôr em causa o brexit, com outro referendo - mas os liberais-democratas andaram nas sondagens pela fasquia dos dez por cento. No futuro os jornais da Europa comentarão as eleições no Reino Unido com a emoção das autárquicas no Uganda. Os britânicos estão-se nas tintas para isso? Sim, já sabíamos, já tínhamos percebido a mensagem do brexit, vai para um ano.

Passemos, então, à América. Ontem, os cafés de Washington abriam às nove da manhã com cocktails a chamar-se covfefe e outros espetáculos a olhar para o espetáculo. Estava a dar James Comey em todas as cadeias televisivas. Desde Os Intocáveis, o FBI não tinha tanto sucesso mas naquele tempo o agente federal Eliot Ness não seria despedido com tanta facilidade. Por outro lado, os diálogos de agora, ao vivo, foram tão bons como os de antigamente, filmados.

Estou até a ver Brian De Palma a roer-se de inveja por não ter filmado aquele jantar, cara a cara, entre Al Capone e Eliot Ness, os dois sozinhos no salão. O chefão da máfia conta como nos velhos tempos de Chicago ele perguntava, a um qualquer polícia que queria comprar, se ele lhe era leal. O polícia dizia que sim. "Mas honestamente leal?", insistia o mafioso. O polícia acenava com a cabeça. No jantar, o mafioso passava as mãos pela sua madeixa loura, perdão, era siciliano, pela cicatriz. Entretanto, o agente federal tirava notas no caderno escondido debaixo da mesa, escrevia: "Eu não me movia, nem falava, nem mudei a minha expressão facial durante o estranho silêncio que se seguiu..."

Mas deixemos o cinema, passemos à real vida, aquela em que o ex-diretor do FBI, James Comey, em direto, daria cabo do presidente Donald Trump... Não deu nada. Eu queria que, ontem, Trump fosse levado preso para Alcatraz, nem que fosse por fugir aos impostos. Caramba, disso até ele se gaba! Mas não... Comey (por acaso tem uma boa cara, ator secundário, anos 40, e esguio como James Stewart) falou para a comissão do Senado e denunciou Trump as vezes suficientes para os cocktails covfefe esgotarem nos bares de Washington.

Nos tempos da lei seca, com o agente Eliot Ness ia tudo dentro e os bares, fechados. Ontem, nada. Claro, quem é que ia acreditar num ex-diretor do FBI que disse "eu não me movia", quando sabemos que tirava notas debaixo da mesa?

Ontem, quinta-feira, tirando os diálogos, não foi grande coisa.

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