Um bote contra Júlio César

A três semanas do referendo sobre a Grã-Bretanha e a Europa, os que são contra o brexit, argumentam quase só com o medo: o desastre económico que traria a saída, o desinteresse dos investidores árabes e chineses numa City de Londres isolada, as retaliações de Bruxelas... Têm razão, mas os adeptos da Grã-Bretanha europeia deviam ser também capazes de convencer com os interesses políticos e culturais, e com o destino comum que é a Europa, na qual aparentemente se acredita pouco. Nada mais desanima do que ver os "nossos" incapazes de se explicar porque o são. Já os adeptos do brexit, os pelo corte com a União Europeia, esses, discutem política - têm más ideias mas assumem-nas. Eles gritam a falácia de que a Europa lhes fragiliza a fronteiras, como se, tornada ilhéu, a Grã-Bretanha ficasse mais impermeabilizada do que está hoje. Como se a questão não fosse exatamente mais uma prova de que os países da Europa ou são Europa ou não são. Desse ponto de vista fronteiriço como de todos os demais - militar, cultural, político... Ontem, houve notícia de 18 albaneses a tentar chegar às praias de Kent num bote insuflável, dos primeiros imigrantes no canal da Mancha à maneira dos que atravessam o Mediterrâneo. Claro, esse bote vai fazer propaganda aos pró-brexit. Mas, por mais difícil que agora seja, é de lembrar que as invasões romanas e normandas ajudaram a construir a ideia em que a Grã-Bretanha se tornou, europeia.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

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Adriano Moreira

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.