Sabe o que é um político Teflon? Trump sabe

E depois da derrota na primeira primária, no Iowa, Donald Trump ganha tudo até à quarta eleição, no Nevada: "Pensávamos não ganhar grande coisa e agora estamos a ganhar, a ganhar, a ganhar...", disse, ontem, o milionário das frases provocatórias. Ele atingiu um patamar, 46%, que nenhum republicano teve até agora. E quase dobrou a votação do segundo classificado, Marco Rubio (24%), apesar deste ter herdado os apoiantes de Jeb Bush, desistente na semana passada.

Rubio aparece cada vez mais como o candidato do establishment do Partido Republicano. O terceiro posto de Ted Cruz no Nevada (e pela terceira vez, depois da única vitória, no Iowa) coloca-o em desvantagem, em relação a Rubio, no duelo para disputar com Trump, na convenção de Cleveland que, em julho, escolherá o candidato republicano.

Perdendo no voto popular, Cruz perde também entre os notáveis do partido. Os apoios dos republicanos com cargos importantes são um bom indício para a decisão nas convenções. Os apoios valem, evidentemente, pesos diferentes, de acordo com o cargo que ocupam. Convencionou-se que os de um membro da Câmara dos Representantes valem 1 ponto, os dos senadores 5 e os dos governadores de estado 10. Ora, até agora, Marco Rubio já recebeu um total de 158 apoios e Ted Cruz só 34.

Quanto a Donald Trump, meteoro de popularidade, não recebeu até agora nenhum apoio de congressista (seja da Câmara dos Representantes, seja do Senado) nem de governador... Ontem, ele teve mais uma das frases de efeito polémico: "Gosto das pessoas de poucos estudos [poorly educated]." Que demagogo não gosta quando também isso serve de bofetada aos notáveis que (ainda) o desprezam.

Como estamos a falar da fase inicial da eleição do homem mais poderoso do mundo, a irresistível ascensão de Donald Trump já o faz o homem do princípio do ano. O comentador Mel Robbins, na CNN, hoje: "Acabou: Trump será o nomeado do Partido Republicano." E muitas manchetes espantam-se - "Quem para Trump?" - já com receio de terem de o proclamar, em fins de dezembro, o Homem do Ano.

Uma coisa já é certa, não serão as suas frases polémicas que lhe farão mal. Donald Trump é o que na América se chama um "político Teflon". Uma alusão ao produto anti-aderente que impede a comida de "pegar" às frigideiras. O que ele diz, por mais escandaloso que seja, não só nunca o queima como lhe aumenta a aura.

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