Ronaldo parte o coração a Madrid

No futebol, devia haver mais amizade e menos amor; a amizade é leal e ao amor acontece-lhe ser infiel. É pena a admiração que tão bem se adivinha nos miúdos dando a mão ao seu herói, nas entradas em campo (ah, os seus olhos deslumbrados!), se transforme neles, ao tornarem-se adultos e adeptos, em ciúme cego de Otelo... E isso é inevitável numa atividade humana dada a transferências.

Seria revelador ouvir os primeiros rapazinhos, de 8, 9 anos, que entraram no relvado de Santiago Bernabéu pela mão de Cristiano Ronaldo, agora que eles são adolescentes e dez anos mais velhos, já com tiques e a paixão desenfreada de sócios de clube. No tempo que vai desde esse primeiro contacto com o jogador, este deu-lhes títulos, glória, golos e alegrias que talvez só outros dois, Puskas e Di Stefano, deram ao clube comum.

E, no entanto, ouvir muitos desses jovens, hoje, seria arriscar a palavras de desprezo sobre a partida do Ronaldo: "Já vais tarde!..." Quando, ainda há semanas, com um pontapé de bicicleta (chilena, dizem, em Madrid) o português dera-lhes um prazer de síncope e abrira o caminho para mais um troféu na Champions. Agora, o jogador partiu, por ele, diz o próprio, porque o Real Madrid não lhe deu a merecida atenção, dizem muitos, mas é esta a razão da minha crónica: no jornal El País, o colunista galego Manuel Jabois escreveu uma crónica divina.

"Merecemos enterrar o nosso ídolo. Merecemos a decadência do nosso ídolo. (...) Não se trata do que ele foi, sim do que ele é", escreveu Jabois, que é aficionado do Real Madrid e queria o jogador para si eternamente. Com um jogador como Cristiano Ronaldo, afinal, desculpem, o futebol também pode ser amor, limpo e empolgante.

Ler mais

Exclusivos

João Almeida Moreira

DN+ Cadê o Dr. Bumbum?

Por misturar na peça Amphitruo deuses, e os seus dramas divinos, e escravos, e as suas terrenas preocupações, o dramaturgo Titus Plautus usou pela primeira vez na história, uns 200 anos antes de Cristo, a expressão "tragicomédia". O Brasil quotidiano é um exemplo vivo do género iniciado por Plautus por juntar o sagrado, a ténue linha entre a vida e a morte, à farsa, na forma das suas personagens reais e fantásticas ao mesmo tempo. Eis um exemplo.