Receita para a salvação do Brasil

Posso? Olhem que é mesmo para dar uma lição... Também, se não aproveito agora, com o meu minorca país, não sei quando poderia ousar dar lições a um tamanhão desses como o vosso Brasil. Agora, com vocês assim tão sem saída, tenho de aproveitar. Só peço, tragam dois mapas vossos e uma máquina de calcular.

Olhem o mapa antigo, quando da vossa Independência, 1822. A forma do país lembra qualquer coisa, não é? Não falo da boca do Amazonas, da peitaça nordeste a entrar pelo oceano, nem do adelgaçar elegante para o sul... Essas fronteiras são naturais - estavam assim quando Cabral chegou. Falo das outras fronteiras. Das que precisaram, para existirem em 1822, que os homens quisessem. Quisessem ir para norte empurrando as Guianas; ir procurar o mais longe possível a nascente do Amazonas (e, aí, até era preciso querer aldrabar os espanhóis sobre o combinado em Tordesilhas); e quisessem descer ao rio da Prata. Foi esse o mapa que os portugueses vos entregaram, a seus devidos donos, há quase dois séculos.

Olhem bem esse mapa, o vosso mapa de ontem, inicial. Lembra qualquer coisa... Já passou tanto tempo, mas lembra isto: é o Brasil! Quase tal e qual esse Brasil grandão, de hoje. Foi esse, o tal antigo de 1822, que os portugueses deixaram. Deixaram, quer dizer, foram obrigados a deixar, os brasileiros obrigaram. Quem tiver dúvidas que leia essa bela memória de João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro, livro grosso para ficar de pé. Os brasileiros obrigaram e ainda bem porque esse país é para gente moça e ambiciosa. Mas não é essa conversa que quero ter agora. Estou aqui só para lembrar que vocês já eram assim, do tamanho deste mapa novo, quando começaram.

Eram assim, e continuam quase igual. Depois de 1822, só uma gordurinha a mais, o estado do Acre, comprado à Bolívia, e uns dentes a menos, a Cisplatina, hoje Uruguai, perdida. Mas, no essencial, brasileiros, vocês estão no mesmo Brasil, grande e todo um. Como Portugal deixou. Só no vosso continente e só com uma comparação, com o que Espanha deixou, reparem como os outros estilhaçaram uma mesma colonização: Uruguai, Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela. E vocês, um.

Eu sei que a experiência inolvidável da França Antártica (1555--1558), cem calvinistas na ilha de Serigipe, na baía de Guanabara, teve um impacto imorredouro, como é natural: foram três anos! Sei que a administração do holandês Maurício de Nassau, em Recife, apesar de ter sido no século XVII, deixou saudades e tanto, tanto descendente (meu Deus, como há intelectual brasileiro trineto de holandês!)... - é natural, foram sete imensos anos. Lembram-se? Há sete anos o Rio foi escolhido para os JO de 2016, e parece ontem. Como fez Nassau tanto, tão bem e tão rápido...

Mas, olhem, calhou-vos os portugueses, o que é ótimo para as anedotas. Porém, para fazer um país não dá. O que quero relembrar é que, talvez com os bigodes entrelaçados das portuguesas, eles deixaram qualquer coisa: um país grande e uno. E era aqui que eu queira chegar. Se calhar há uma lição qualquer a tirar disto. Um país de 92 mil quilómetros quadrados fez-vos. A vocês, um país de 8500 mil quilómetros quadrados. Se fizerem as contas, 92 ao quadrado dá, arredondado, 8500. Os vossos geógrafos de antanho, que fomos nós, talvez quisessem assinalar com esta charada numérica, encerrada num mapa, um traço de carácter comum: os brasileiros são portugueses ao quadrado.

Eu sei, se pergunto ao taxista do estado de Santa Catarina, terra colonizada por açorianos e onde, no interior, se cantam modinhas de São Miguel, de onde vieram os seus, ele divaga. Enquanto leio no tablier o seu nome, "João Pedroso da Cunha", ele diz: "Antepassados? Deixa ver, tem alemão, italiano, parece também que há um francês." E como eu estou ali, ele é simpático: "Vai ver que também tem português..." Normal, num país que tem Dilma Rousseff, a primeira chefe de Estado com pai búlgaro, de quem toda a gente já ouviu falar, e não tem mãe, que se chama Coimbra Silva, como ninguém sabe.

Ora, num país assim, se calhar fazia-lhe bem ser um bocadinho português. E, sendo-o, perfilhar esse defeito tão português de ser indulgente e dialogante, a ponto de unir um gigante. Deu com o mapa. Talvez dê com a política. Na Câmara de Deputados, em Brasília, há 25 partidos e os dois maiores só representam 12%, cada um. Parece um mapa espanhol nas Américas (e, já agora, na Ibéria)... Terreno para mensalões, compras de cúmplices e falta de alianças políticas.

Vá lá, apesar do péssimo que somos, assumam-se um bocadinho da terrinha. Nem queiram saber como vos daria jeito, agora, praticar o nosso defeito de saber unir.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.