Quero lá saber do Benfica!

O FC Porto foi a São Petersburgo ganhar ao Zenit e passar à fase seguinte da Champions. O treinador do Zenit é o português André Villas-Boas, facto que faz do Zenit o único clube russo em que os portugueses conhecem o treinador.

No fim do jogo, Villas-Boas, que é sobrinho-neto do 2º barão de Paçô Vieira e trineto do 1º barão de Paçô Vieira (o que faz, ao André, no campeonato da genealogia, estar quase a apanhar o sr. Silva, dono do meu café, que é Silva há cinco gerações), no fim do jogo, dizia eu, o treinador do Zenit disse uma coisa que me encanita.

Disse ele, quando lhe perguntaram o que poderia ser a carreira do FCP na Champions: "Não me preocupa muito, como devem calcular. Não sou portista. Apesar de ser português, não me interessa muito até onde o FCP pode chegar na Liga dos Campeões." E acrescentou: "Peço desculpa mas é a minha sinceridade."

Qualquer treinador de outro clube russo teria desejado boa sorte ao clube adversário que limpamente acabara de o derrotar. Mas, lá está, vai para cem anos que a Rússia acabou com condes e grão-duques e ela ficou sem a patine do que parece ser a sinceridade casca grossa, apanágio dos Paçô Vieira há séculos.

Sobre educação, é tudo. Mas o que me preocupa, e muito, é o erro a que pode chegar um emigrante apaparicado pela Nação. Acontece que a condição de português, não de adepto dum clube, deu e dá a André Villas-Boas um eco que lhe permite ser conhecido, por cá, como o treinador português que treina clubes estrangeiros, e, lá fora, como treinador que é de um país que dá bons treinadores.

O eco (jornais, televisões, conversas de café...) dessa condição de português, de alguma forma terá contribuído para alindar os contratos que AVB tem assinado, mundo fora. Muitos adeptos fanáticos de clube português gritam o seu desprezo por outros clubes portugueses, mesmo quando estes estão em competições internacionais. É o direito duma opinião livre. Eles podem tê-la porque não ganham nada do futebol português. Ora, AVB tem ganho.

AVB começou aprendendo num clube português, encostou-se na carreira internacional a um treinador português e quando começou a carreira sozinho veio para um clube português. Os jornais portugueses oferecem-lhe um destaque contínuo que ele não tem pelos países por anda anda. Não seria pedir-lhe muito que, no estrangeiro, ele não apoucasse um clube português, um dos dois únicos, com o Braga, que continuam em provas europeias.

No fundo, o AVB deveria aprender alguma coisa, por exemplo, com Alfredo Vieira Coelho Peixoto Pinto de Vilas-Boas (1860-1926), 2º barão de Paçô Vieira, seu tio-avô. Este nasceu no norte, em Braga. Mas não cuspiu em outras regiões do país, porque reconheceu nelas o todo em que ele fez a carreira: juiz em Portalegre, deputado pelos Açores, administrador da Companhia de Moçâmedes... Não lhe viria à cabeça, pelo amor especial a uma parte do norte, menosprezar, publicamente e no estrangeiro, o resto.

E o que Alfredo não podia fazer, André faz, porque é futebol? Dou de barato, talvez sim. No futebol pode ser-se tolo à vontade. A contar com isso, troquei nos primeiros parágrafos o FC Porto pelo Benfica (foi o Benfica que jogou na Rússia, e André Villas-Boas é portista, desprezou o Benfica e não o FC Porto). A troca foi para sublinhar que qualquer que fosse o clube (aliás, esses ou outros) a tolice seria a mesma.