Que tenho a ver com aquele pénis?

No Twitter, uma americana de quem eu nunca ouvi falar disse que um ex-secretário de Estado português de quem quase nunca ouvi falar lhe mandou a foto do pénis. No sábado, foi assunto bastante badalado (desculpem-me, não vou retirar o primeiro e correto termo que me veio à escrita, só porque se presta a segundas intenções). Do que percebi do Twitter da mulher, ela e o político nem se conheciam, calhou falarem, a conversa entre ambos era dúbia e o ponto baixo foi o tal envio da foto. Sobre esta não houve demonstração, apesar de não ter faltado quem em Portugal tivesse exigido prova pública: "Mostre o dick pic!" Que ela mostrasse a "foto do ricardo", traduzo, mal. Aqui chegado, confirmo, estou razoavelmente espantado, mas é com isto que temos de viver. Entretanto, no domingo, e alguns tweets depois, a mulher disse que não foi assédio e que ela não era vítima de coisa nenhuma... A quem lhe perguntou porquê, então, fizera a acusação, ela respondeu: "De onde eu venho, nós humilhamos frequentemente os políticos e as figuras públicas, na comunicação social." Ela vem, portanto, de sítio errado, seja lá onde for. Por cá somos melhores nesse aspeto, piores noutro: o ex-político apanhou por ser da esquerda ou da direita, uma delas. Sttau Monteiro escreveu uma peça, A Guerra Santa, onde uma personagem não sabia se era um general de esquerda com cuecas da direita, se um general de direita com cuecas da esquerda. Essa evocação foi o único bom momento que tiro desta história.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.