Poderosa marca homenageia o cliente

Brecht lembrou um esquecimento num célebre poema. Neste, todos os versos insistem no mesmo: "O jovem Alexandre conquistou as Índias/ Sozinho?"... Pois é, os de baixo estão sub-representados nas homenagens. A primeira vez que se ergueu um monumento ao Soldado Desconhecido - por definição, este era um anónimo magala - nem fez ainda 100 anos. Nas primeiras legislativas depois da Grande Guerra (a que ainda não sabia que teria uma Segunda), o Parlamento francês chamou-se de "câmara azul", tal era o número de deputados que envergavam o uniforme de combatente vindo da linha da frente. A identidade com os irmãos de armas levou-os a votar o primeiro Túmulo do Soldado Desconhecido, em 1920. Depois de tantos séculos de guerras, enfim, a homenagem. Esta não é nunca de desprezar, mesmo quando pequena (em troca de uma vida perdida aos 20 anos tudo é pequeno). Ter-se homenageado o soldado demonstra já um certo respeito, ou receio, por ele - antes, as homenagens não se seguiam às matanças. Como a mentira a um empregado doméstico já era um estadio superior a quando se falava a verdade frente aos escravos. E assim vamos por diante, esperemos, de vitoriazinha em vitoriazinha até, sei lá... Ontem, nova homenagem. Soube-se que a Volkswagen vai mudar o seu logótipo. Com duas letras apenas - um V em cima de um W, dentro de um círculo - uma poderosa marca de automóveis atravessou 80 anos. A revolução é oficialmente explicada pelo salto para a modernidade, os carros elétricos. Mas a melhor versão talvez esteja na necessidade de a marca (e o seu logo) fazer-se esquecer das tropelias no Dieselgate. Há quem veja nisto um embuste, publicitário mas embuste. Será também, mas, muito mais do que isso, é uma homenagem à força do cliente. Enfim, os de baixo continuam a impor homenagens aos de cima.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.