Passos tem mais encanto na hora da despedida

Hoje, quero lembrar o meu mérito maior: o país começou a dar atenção aos números. Aquele défice não era para ser cumprido, mas dávamos atenção. Àquele crescimento prometido não chegávamos lá, mas dávamos atenção... Dir-me-ão, a economia não ganhou grande coisa com isso. Pois não. Mas a educação ganhou. Hoje, graças à nossa insistência com números, todos os portugueses começam a apreciar a aritmética. E, hoje neste Parlamento, tivemos o grande exemplo do renovado interesse nacional pelo valor do algarismo, a poesia do algoritmo, a surpresa da adição. A partir de agora, ninguém mais pode ignorar que 122 é mais do que 107. Fosse ontem, quando imperava a teoria dos conjuntos fechadinhos no seu casulo, 107 era maior do que 86 mais 19 mais 17. Até eu me surpreendo com o que isso pode ocasionar na subtração das minhas ambições... Sou a principal vítima, mas saúdo o conseguimento dos governos que tive a honra de presidir. Também, se bem se lembram, em 2011 eu tinha prometido mais eficácia do Estado. Geralmente, quando os resultados são bons, os partidos governamentais salientam os méritos nas campanhas eleitorais. Não foi isso que fiz, preferi esperar pelo fim das eleições para poder comparar. Faço agora o balanço. No mandato passado liderei um governo por 4 anos, 4 meses e 9 dias, isto é, 1592 dias. Hoje, cai o meu segundo governo, só com 10 dias! Contando os prós e contras, é evidente que este último governo foi muito melhor.

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Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

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Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

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Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.