Ouçam, vejam e mastiguem...

Ah, as férias! Eça e Ramalho, um de lorgnon, outro de bengala de castão de prata, falavam delas, no Casino da Figueira... Devem ser bem antigas, as férias, pois aqueles escritores são do século XIX. E, no entanto, não. Se de férias estamos a falar para todos, não, de facto. Eça e Ramalho falavam de férias dos comerciantes ricos ou de dândis. As férias para todos são coisa moderna, contemporânea à invenção da penicilina. Foi numa França rasgada entre a direita e a esquerda, governada pela Frente Popular, união das esquerdas. Esta ganha as eleições em maio de 1936 e em junho faz a lei das férias pagas para todos. Bizarra lei, ganhar 15 dias sem os trabalhar... Em julho e agosto, já 800 mil franceses aproveitaram. No ano seguinte, três vezes mais. A bizarria, aproveitaram-na os da esquerda e os da direita, universalizou-se e alargou-se a mais dias. E, hoje, quem se queixa dela, seja da direita ou da esquerda? Ontem, 13 de junho de 2018, a França pode ter voltado a fazer história e armar-se em cegonha para levar outra bizarria mundo fora. Macron anunciou a medida-farol do seu programa de saúde: até 1 de janeiro de 2021, dois anos e meio!, os óculos, os aparelhos auditivos e as próteses dentárias serão a custo zero. Claro, todos não terão grátis óculos de marca nem próteses XPTO - mas ninguém deixará de ver o que precisa de ver, de ouvir o que tem de ouvir e de precisar de meter o bife no passador por não ter com que mastigar. Estes saltos em frente estão garantidos a todos. Quer dizer, com a garantia de sucesso, porque o que é de todos, todos defendem. As conquistas de corporações, de grupos sociais com força de protesto que outros não têm, são conquistas injustas, fatores de divisão e, no fim de contas, conquistas vãs. Há uma dúzia de anos, os jornalistas tinham uma caixa que lhes pagava indecentemente teclados dentários em consultórios careiros. Num país onde aos velhos camponeses não se diagnosticava cancro porque eles não tinham consulta médica nenhuma... Quando a tal caixa lambona lhes foi tirada (e muito bem!) - a alguns jornalistas ficou-lhes belas dentaduras mas todos foram remetidos sem remédio para a deficiente cobertura sanitária nacional. Poucos tinham aproveitado a força da sua voz de protesto para defender o óbvio: as conquistas sociais são de todos, ou não são. E não é um aforismo político ou moral, é porque sim.

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Opinião

DN+ O sentido das coisas

O apaziguamento da arena de conflitos em que perigosamente tem sido escrita a história das relações entre as potências no ano corrente implica uma difícil operação de entendimento entre os respetivos competidores. A questão é que a decisão da reunião das duas Coreias, e a pacificação entre a Coreia do Norte e os EUA, não pode deixar de exigir aos intervenientes o tema dos valores de referência que presidam aos encontros da decisão, porque a previsão, que cada um tem necessariamente de construir, será diferente no caso de a referência de valores comuns presidir a uma nova ordem procurada, ou se um efeito apenas de armistício, se conseguido, for orientado pela avaliação dos resultados contraditórios que cada um procura realizar no futuro.

Opinião

DN+ João

Os floristas da Rua da Alegria, no Porto, receberam uma encomenda de cravos vermelhos para o dia seguinte e não havia cravos vermelhos. Pediram para que lhes enviassem alguns do Montijo, onde havia 20, de maneira a estarem no Porto no dia 18 de julho. Assim foi, chegaram no dia marcado. A pessoa que os encomendou foi buscá-los pela manhã. Ela queria-os todos soltos, para que pudessem, assim livres, passar de mão em mão. Quando foi buscar os cravos, os floristas da Rua da Alegria perguntaram-lhe algo parecido com isto: "Desculpe a pergunta, estes cravos são para o funeral do Dr. João Semedo?" A mulher anuiu. Os floristas da Rua da Alegria não aceitaram um cêntimo pelos cravos, os últimos que encontraram, e que tinham mandado vir no dia anterior do Montijo. Nem pensar. Os cravos eram para o Dr. João Semedo e eles queriam oferecê-los, não havia discussão possível. Os cravos que alguns e algumas de nós levámos na mão eram a prenda dos floristas da Rua da Alegria.

Opinião

DN+ Quem defende o mar português?

Já Pascal notava que através do "divertimento" (divertissement) os indivíduos deixam-se mergulhar no torpor da futilidade agitada, afastando-se da dura meditação sobre a nossa condição finita e mortal. Com os povos acontece o mesmo. Se a história do presente tiver alguém que a queira e possa escrever no futuro, este pobre país - expropriado de alavancas económicas fundamentais e com escassa capacidade de controlar o seu destino coletivo - transformou 2018 numa espécie de ano do "triunfo dos porcos". São incontáveis as criaturas de mérito duvidoso que através do futebol, ou dos casos de polícia envolvendo tribalismo motorizado ou corrupção de alto nível, ocupam a agenda pública, transformando-se nos sátiros da nossa incapacidade de pensar o que é essencial.