O livro de Raposo e o Alentejo de todos

Henrique Raposo é cronista do Expresso e acaba de escrever um livro sobre si e os seus. E sobre o Alentejo, que veio por arrasto, porque a família de Raposo emigrou de lá para a periferia de Lisboa. E sobre o Alentejo, que se tornou a personagem do livro porque o autor andou-se à procura (pelo que percebi duma entrevista de Raposo e por um excerto publicado no Observador). Sobre Henrique Raposo tenho a dizer o seguinte. Sobre o que li sobre os suicídios alentejanos tenho a dizer o seguinte. E mais não digo, porque não cabe aqui mais do que aqui me traz. E o que aqui me traz é o seguinte: o Henrique Raposo tem direito a escrever o que lhe der na gana. Sucedeu depois outra coisa: muitas pessoas não gostaram do livro e passaram a não gostar do Raposo (ou já vinha de trás). Sobre isso, o seguinte: também têm direito. Até de não gostarem, não tendo lido, e não gostarem pela cara do Raposo. Têm direito a isso e a dizê-lo. Olha, até podem fazer um livro sobre o Raposo. E esse direito vai até poderem dizer: "Até esta bosta de livro mais o tolo do autor têm direito à palavra." Essa é a fronteira que não podem ultrapassar. Não podem tentar calar livro e autor. O livro ia ser lançado num sítio mas já não vai, para o sítio não estar ligado ao livro - o que não diz nada do livro, e muito do sítio. Mudou-se para outro lugar, Bertrand (Picoas), dia 8, às 18.30, e a editora avisou a PSP. Fiquei avisado: devo lá estar.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

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Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.