O califa que quer o califado

Um trabalho de relojoaria, dizia eu, ontem, da tarefa que cabe a Emmanuel Macron. O novo presidente francês quer ser o califa no lugar do califado, tomar o poder que durante mais de 40 anos tem sido partilhado pelos socialistas (PS) e os gaullistas (LR), ambos moderados mas puxando cada um para o seu lado. Depois de lhes ganhar o Eliseu, Macron, pelo centro, quer ganhar-lhes o Parlamento já daqui a um mês. O anúncio do novo governo pode explicar-nos como será conduzida essa segunda intenção. Foi a distribuição criteriosa, de forma a conquistar à esquerda e à direita? Foi a escolha dos novos ministros uma demonstração de que em Macron há uma nova política? E, no que mais importa a Portugal, uma esperança por uma nova Europa?... Antes do osso, um detalhe de política menor, provando que o novato Macron não é um ingénuo: o novo governo, anunciado para terça, foi afinal conhecido só na quarta. Prudente adiamento: na quarta, sai o Canard Enchainé, o prestigiado semanário derrubador de políticos, num país onde os jornais (especialmente aquele) ainda são lidos e respeitados. Até chegarem as bicadas prematuras, o novo governo ganhou uma semana de alívio, e isso também é relojoaria. Quanto à repartição de membros do governo, é de lembrar que a origem política dos escolhidos (PS ou LR) não é uma homenagem a essas forças, é uma ameaça a elas. Quando o primeiro-ministro Édouard Philippe, do LR, foi escolhido, alguns viram nisso uma prova de que Macron era de direita. Mas o jornal Le Figaro soube traduzir: "Má notícia para a direita: o novo primeiro-ministro é um homem de direita"... Só os centristas, apesar de escolhidos, não se podem queixar, pois foi de bom grado que o partido MoDem e seu chefe (François Bayrou, novo ministro da Justiça) aderiram ao plano de Macron. Já o PS e o LR viram ser sugados para ministros vários dos seus, alguns ex-ministros (dos socialistas, dois foram ministros de Hollande) - num prenúncio da viagem massiva que poderá ser feita por novos deputados daqui a um mês. Nos ecologistas, a pesca foi graúda: o muito popular Nicolas Hulot, que recusara ser ministro de Chirac, Sarkozy e Hollande, cedeu a Macron. Mas o maior indício é a ministra das Forças Armadas Sylvie Goulard ser uma ferrenha europeísta, até federalista. Não é um sinal da vontade de dotar a Europa daquilo em que ela é mais fraca, uma política de defesa? E haver um ministro "da Europa e dos Negócios Estrangeiros", convida-nos a saudar a prioridade do cargo.

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