Marcelo pisca olho à esquerda e esta não viu

Estivesse eu na Assembleia da República, virava-me para o Herman José, caso ele também lá estivesse, e dizia: "Senhor engenheiro, estes homens não são da esquerda! Carago!" E apontava para as bancadas do BE e PC. Sentadinhos e sem aplaudir o discurso do novo Presidente.

Então, Marcelo faz um discurso e cita a megera (já lá vamos), criticando-a, e as bancadas da esquerda não se levantam aplaudindo?! Vou citá-lo, nas suas imortais palavras atacando o capitalismo selvagem. Falava Marcelo Rebelo de Sousa da função reguladora do Estado e da necessidade de proteger os desapossados e humilhados, e referiu a criminosa. Devemos defender, disse ele, "aqueles que a mão invisível apagou, subalternizou e marginalizou." A opressora foi denunciada: "Mão invisível"

Estivesse o professor Louçã na bancada que foi sua e teria lançado dois gritos: "Apoiado! Abaixo Adam Smith!" Ah, que saudades dos tempos em que as bancadas da extrema-esquerda tinham referências... Ou, tão-só, nariz para cheirar alusões aos Mellos e Champallimauds. O antigo deputado da UDP, Américo Duarte, operário da Lisnave, mesmo sem ter lido A Riqueza das Nações, ao ouvir "mão invisível", teria lançado o boné à mesa e gritado: "Fascista!"

Mas não, hoje, o BE e o PCP não aplaudiram a critica à fuga dos impostos para a Holanda e os bancos a falir logo depois de terem recolhido mais um aumento de capital... No fundo, as bancadas da esquerda aceitaram a visão idílica do capitalismo: deixem em paz a mão invisível que ela harmoniza o interesse de todos, do rebanho das ovelhas e dos lobos. Como dizia Adam Smith, ainda no começo da máquina a vapor, deixem a Goldman Sachs procurar o seu interesse que a mão invisível há-de cuidar do interesse geral.

Eu, se fosse o Marcelo, hoje, voltava-me para a Catarina e o Jerónimo e dizia-lhes: "Se eu digo coisas para me cobrarem mais tarde e vocês não ligam nenhuma, passo só a acenar à direita."

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