Gestos por Ronaldo

Quando eu era um garoto luandense havia um gesto que pensava já desaparecido. O indicador da mão fazendo de baqueta a fustigar os outros quatro dedos aninhados - entretanto, todo o braço se movia para que o bater fosse violento. Bem feito, o gesto doía. E, no entanto, o significado dele era uma admiração incontida. Soube ontem que os berberes também têm esse gesto. Zidane levou a mão à careca, deixou-a cair e lá foi ela tocando as castanholas da minha infância e, ontem, do êxtase dele. Temos ADN comum e o berbere estava fascinado... Os italianos estavam também fascinados, mas eles já sem o indicador fustigador, pois nunca foram ocupados pelos guerreiros do Norte de África. Com cara de enterro eles batiam as palmas dos perdidos: "Ave, César!, os que mataste te saúdam", calados diziam como os gladiadores romanos, mas em frase um pouco diferente talvez porque eles eram espectadores turineses. O imperador, esse, levou ambas as mãos juntas ao peito e inclinou a face como uma gueixa, talvez porque ele é um pouco isso: está cá para nos encantar. Um, dois, três gestos são tudo. Dizem tudo. Mas talvez fosse tempo de os analistas começarem a explicar-nos o êxito de uma inteligência que pensávamos ser só pés. Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, o conhecido empresário, 33 anos, idade em que os deuses morrem, sabia que a sua empresa unipessoal e fazedora de sonhos estava à beira do gran finale. Então, preparou a época. Fez um levantamento dos ativos, contou 66 anos nas duas pernas e investiu na prudência ambiciosa. Começou pianíssimo como nunca se lhe conhecera, meteu raros golos, o que nele era como o Bruno de Carvalho calar-se. O grande gestor estabelecera os seus dois derradeiros clímaxes: em maio, a Champions; em julho, o Mundial. E assim tem cumprido a calendarização da sua glória. Coisas como a de ontem são uma maravilhosa ação de marketing, são para nos preparar para o que vem aí. Ah, se tivéssemos alguém assim para gerir um só banco que fosse...

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Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.