Eu foria

Trabalho numa bela casa que dá, por janelas desenhadas por Pardal Monteiro, para o início do percurso do autocarro dos campeões europeus, entrando pela Avenida da Liberdade. É extraordinário como os antigos eram previdentes - a casa do DN existe há mais de três quartos de século e, ontem, só éramos campeões nem há 24 horas. Para os ver passar, aos heróis, eu podia ter escolhido qualquer das amplas janelas, ou o terraço, ou ainda as salas de reunião de frente curva, por quatro andares e encimadas por um lanternim, que fazem a fachada parecer uma antiga impressora de jornais. Mas não fiquei por ali, sou um homem agradecido.

Aqueles que vão morrer te saúdam, diz-se que diziam nas arenas os que, apesar de admiráveis, não eram livres de escolher. Os meus heróis eram. Escolheram oferecer-me um gosto, ser campeão europeu, à custa de passarem, até comigo, por aborrecidos durante um mês. Ontem, eu quis agradecer-lhes a minha felicidade final. Não poderia ser das minhas janelas, mas da posição natural, para quem é agradecido e, todos os dias, olha o Marquês como deve ser, de baixo.

As televisões anunciavam que os novos comendadores, vindos de Belém, já desciam a Joaquim António de Aguiar. Saí à rua e reparei que os automobilistas que subiam a Avenida, apesar de a polícia os convidar a escapar ao engarrafamento, fizeram-se de desentendidos. Desligaram os carros, abriam as portas e subiam para os estribos para esperarem o que vinha pela outra faixa. Era aí que eu estava, de pé, já ouvindo o rumor de rádio mal sintonizado que anunciava a alegria que já ia na curva da praça. A faixa estava apertada pela multidão, num carreiro que mal dava para passar um tuk-tuk. Sirenes, carros e motos, com ninjas de viseiras negras, ajudaram as alas a alargar. Foi feito sem drama, gente feliz é boa de ser mandada.

Vi então os meus benfeitores a chegar, de autocarro vermelho e risco verde - o meu, não o pobre azul que no dia anterior tinha recolhido a uma garagem solitária parisiense. Nunca pensei fazer comparações destas. Deitei um olhar breve pela Avenida abaixo e já era cardume agitado de agradecidos. Foi a última vez que fiz sociologia dos outros. O autocarro aberto estava à minha frente, e passei à autoanálise. Vi-me com os dois braços abertos e ao alto, em "v". E gritava um poema de verso único: "Campeão." Repeti-o meia dúzia de vezes. E assim, no singular.

Admito que é estranho um sessentão a declamar no meio da Avenida e de braços abertos. Mas também era a primeira vez que eu era campeão português. Tenho para minha justificação, se é que justifico alguma coisa, que não estava aos pulos e os gritos eram calmos. Talvez me preocupe um pouco aquele singular: "Campeão", quando o disse ao cruzar o olhar com o Cristiano e, depois, com Quaresma, que estava empoleirado nas traseiras, com uma perna de fora a dar a dar, apesar de tanta polícia à volta.

Receio que algum dos dois pensasse que "campeão" fosse uma obviedade que eu lhe lançava. Não era. "Campeão", era um falar para mim, percebi depois, pelo exercício de introspeção a que me obriguei quando me apanhei naqueles preparos estranhos. Não tinha, aliás, programado o que quer que fosse. Aconteceu trabalhar num sítio, a seleção admirada passar por lá, e eu sentir que devia estar ali, de braços abertos em "v", grito contido e forte. Assunto meu. Quando eu for grande, isto para entenderem melhor, queria ser um miúdo que vê um adulto de choro amargo por alguma coisa que deu, a mim, alegria. Então vou dizer-lhe: "Senhor, deixe lá." Os miúdos são muito egoístas, mesmo quando fazem coisas lindas. Sabem, a ilusão de suavizar os desiludidos com um abraço.

Apesar das alas apertadas, o autocarro aberto já passara. Aí, aconteceu outra coisa estranha: pus-me a correr atrás dele. Da última vez que fiz uma coisa parecida, era garoto. Estava no meu bairro luandense e ainda convencido de que um dia seria campeão, pelos meus próprios pés, não os dos outros. No tempo das chuvas, passava em São Paulo o "carro de fumo" que lançava nuvens de DDT para matar mosquitos. O desafio era, correndo atrás, metermo-nos no fumo e sermos os últimos a sair dele. Os mais fracos desmaiavam, o que nunca me aconteceu, mas também nunca fui o campeão de mergulho em inseticida.

Mudando o que há para mudar, fui ontem com a mesma alegria ingénua pela Avenida abaixo, e retomei o contacto com o autocarro descapotável, nos Restauradores e no Rossio. Só quando conseguia a posição digna de me pôr paralelo aos heróis, parava, erguia os braços e gritava o que já era uma ladainha. "Campeão." Eles meteram-se pela Rua da Betesga (o que é possível meter de grandeza na Betesga!), mas fintei-os e encurtei pela Rua do Amparo. Não consegui posição, nem, pois, braços no ar e gritos na Praça da Figueira. O autocarro ia pelo Poço de Borratém e voltei a encurtar, correndo pela Rua da Palma. Frente ao Hotel Mundial, um negro, também de cabelos brancos, emparelhou comigo e disse: "É de malucos." O meu fôlego não deu para responder, mas acenei.

No Martim Moniz, frente à capela de Nossa Senhora da Saúde, cheguei primeiro do que os atletas. Respirei fundo, deixei-os chegar, ergui os braços e voltei a declamar: "Campeão." Acho que interlocutei com Adrien ou Cédric. Como já os confundia, dei por fim a minha maratona.

Deixei escapar o autocarro rumo à Alameda. Voltei ao jornal de táxi e pelo Google Maps soube que fiz 1980 m. Desde 1966, Mundial de Inglaterra, tinha-me prometido esta homenagem à minha alegria. O regulamento era que nunca podia ser uma quase-alegria. Cumpriu-se ontem.

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